JEAN-SEBASTIEN EVRARD/AFP
JEAN-SEBASTIEN EVRARD/AFP

A fuga das 'pequenas rainhas de Cabul' ao país na Volta da França

Irmãs afegãs quebram barreiras com ciclismo

Hélène Duvigneau, AFP

06 de julho de 2017 | 07h00

Com um discreto pano negro atado ao capacete e muito concentradas, Zahra e Masomah Alizada percorrem as serpenteantes estradas rurais da Bretanha Francesa, felizes por retomar o treinamento após um Ramadan particularmente caloroso. Com 19 e 20 anos, respectivamente, essas duas irmãs afegãs de olhar travesso, apelidadas de “pequenas rainhas de Cabul”, são as líderes da equipe nacional afegã de ciclismo feminino.

Elas se refugiaram na Bretanha há dois meses, na companhia de seus pais e de seus três irmãos, para fugir dos insultos cotidianos, das ameaças e dos atentados por viver a paixão pelo ciclismo alimentada por seu pai, um trabalhador da construção civil. “No Afeganistão, os homens acreditam que uma mulher não deve montar uma bicicleta, e os talibãs nos proibiram de praticar o esporte. Aqui é muito fácil, homens e mulheres praticam o ciclismo”, conta Masomah, em um bom inglês.

Como suas companheiras de equipe, as irmãs Alizada foram muito ousadas ou inconscientes ao montar em uma bicicleta em público em um país no qual nenhuma outra mulher se atreveu a fazê-lo – principalmente quando, como elas, se pertence à minoria xiita hazara, que frequentemente é objeto de sequestros ou atentados. “Nunca renunciei à bicicleta. Ao contrário, quero incentivar as meninas a utilizá-la e regularizar o ciclismo feminino no Afeganistão”, defende Masomah.

Após haver tentado do tae-kwon-do, o vôlei e o basquete, as irmãs acabaram se encantando pelo ciclismo. “Numa bicicleta, você tem a sensação de liberdade, de que ninguém lhe diz que não pode fazer isso ou aquilo porque você é uma mulher. É extraordinário, você se sente como um pássaro”, explica.

Seu pai, por sua vez, nunca cedeu às pressões. Ele diz que quis ser “um bom exemplo para outros pais, mostrando que homens e mulheres têm os mesmos direitos”.

Exilada no Irã sob o regime dos talibãs, a família Alizada teve negados vinte pedidos de asilo. Embora seja fruto do azar, sua aventura francesa levou as irmãs a participar, em 2016, de uma prova de ciclismo em Albi, no sul da França, que qualifica para campeonatos do mundo.

Esta também é a história do encontro das jovens com alguns dos grandes amantes do ciclismo, como a família Communal, que conheceu o caso dos Alizada por meio de um documentário transmitido pela televisão. Sensibilizados com a situação, o avô, o pai e o neto dos Communal ofereceram alojamento à família em sua casa de campo em Guéhenno, na Bretanha, e criaram uma associação para arrecadar fundos com o objetivo de ajudar os Alizada.

No vilarejo, seis professoras aposentadas se uniram para ensinar francês à família, enquanto uma vizinha “lhe fazia pequenos favores, oferecendo carona de carro ou mostrando as hortaliças da região”. Segundo Thierry, o filho dos Communal, “o objetivo é mesclar o ciclismo com os estudos. É preciso matriculá-las em uma universidade, mas também integrar os pais” à sociedade. Em junho, foi feito um pedido de asilo à família.

Professor de engenharia civil, Thierry diz estar “surpreso” com o nível das jovens ciclistas e espera poder inscrevê-las em um clube para que possam treinar “duas ou três horas por dia”. Mosamah e Zahra estão, por sua vez, ansiosas para acompanhar de perto uma das etapas do Tour de France. No longo prazo, elas gostariam de participar de uma seleção para os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 e, por que não, conseguir “uma primeira medalha para o esporte feminino afegão”. /  TRADUÇÃO DE SIRLENE FARIAS

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