A gente se vê na Record

Crítica de TV

Keila Jimenez *, O Estadao de S.Paulo

25 de agosto de 2008 | 00h00

Dizer adeus nunca é fácil. Perdendo, pior ainda. E vem então do já cansado Galvão o meu alento: "Lindo esse clima entre as torcidas brasileira e americana aqui no vôlei, ninguém bate com o mastro da bandeira na cabeça do colega ao lado porque perdeu!" Era o que faltava! Bom, mas cansada mesmo estava Virna, na Band, anunciando que Rússia e Itália tinham ganhado várias medalhas, mas que estavam agora disputando uma medalha "inédita". Inédita em quê? Nem ela sabe. E Galvão segue em sua maratona de adivinhação, decifrando o que os torcedores e jogadores dizem e a gente não ouve. "Olha lá, a torcida chinesa está falando: ?Vai, Brasil!?", "O Bernardinho tá mandando olhar o fundo da quadra", "O Giba comemora o ponto e diz..." Opa, o Giba disse um palavrão.E só há duas certezas no final de uma partida do Brasil: a pressa da TV para colocar os patrocinadores no ar e o repórter Bruno Lawrence, cercando os atletas, tentando uma entrevista no estilo ?seqüestrador?: "Olha, estamos com sua família, estamos com sua família! Fala com a gente!" Que medo!E nem os astros da NBA prometendo surra em cima dos espanhóis animam. "Vai ser fácil para os EUA", comenta Oscar. Oscar? Que maravilha, pensei que ele tinha sido extraditado pela Globo ou trocado por uma réplica chinesa que não falasse tanto. "Quem disse que seria fácil para os americanos?", pergunta ele minutos depois. Quem foi, quem, Oscar? A vez é da maratona e do "poeta" Lauter Nogueira, no SporTV : "O vencedor da maratona surge, com a roupa encharcada e A alma repleta de chão..." Ah, não, Milton Nascimento a essa hora, não. Oba, cerimônia de encerramento. Bailarinos voadores, fogos de artifício, David Beckham - bom, parece ser ele de verdade, não um cover - chineses famosos que eu nunca vi, Felipe Massa na liderança. Massa? É, a Globo ignora a despedida chinesa. Troca por Fórmula 1. Enquanto isso, a Band e as pagas aproveitam, em uma disputa para se livrar de toda e qualquer curiosidade olímpica. "Se hoje falamos português, é por causa da Grécia. Se os gregos não tivessem vencido a maratona, lá atrás, nós falaríamos a língua persa", dispara Álvaro José, na Band. Ah... E lá vem o compacto dos melhores momentos da festa na Globo.Espremido no Esporte Espetacular, com um Galvão Bueno contido, quase calado. Na madrugada, ele chegou a dizer, com a voz embargada, que a tristeza do jogador Gustavo, que está deixando a seleção, era a mesma de quem estava narrando uma partida olímpica pela última vez. Mensagem subliminar, pois a próxima Olimpíada foi parar nas mãos da Record, com exclusividade. Daí a despedida de Pequim mixa por parte da Globo, selada com a ausência da frase clássica do narrador ao final das grandes transmissões esportivas. Ontem, Galvão trocou o: "A gente se vê em Londres", ou "A gente se vê daqui a quatro anos" por um "até mais". Mais, Galvão? Tomara que sim, afinal, de quem eu vou reclamar tanto?

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