A grande lição

Na tarde de 5 de julho de 1982, um jornalista italiano me cumprimentou, no saguão do Estádio Sarriá, pouco antes de Brasil x Itália, e lascou a seguinte frase: "A seleção de vocês precisa ganhar, para o bem do futebol". Infelizmente, não lembro o nome daquele colega visionário. Mas acertou em cheio na profecia. A fabulosa equipe de Telê Santana levou de 3 a 2, foi massacrada por críticas impiedosas, levianas, e a queda dela iniciou mudança na forma de atuarmos. Para pior.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2011 | 03h04

Nos últimos 30 anos, o Brasil conquistou outros dois títulos mundiais, muito por genialidades individuais e menos por esquemas atraentes. Nossos times também levantaram taças de todos os formatos. Mesmo assim, desde a trágica data na Espanha ficou arraigada a certeza de que não adianta jogar bonito e perder. Gerações cresceram ouvindo a ladainha de que espetáculo não ganha jogo, o que vale são os três pontos, interessa só a vitória, até por meio a zero, com gol de mão, aos 47 do segundo tempo. E outras bobagens do gênero. Tivemos, nesse período, o Flamengo de 81/83, em parte o São Paulo de Cilinho e o de Telê, o Palmeiras de 93/94 e 96. Exceções.

Passamos a nos envergonhar do virtuosismo, da troca de passes, do drible, dos deslocamentos, do estilo ofensivo, do atleta formado em casa. Tudo o que o Barcelona tem feito à perfeição, que enche os olhos de plateias pelo mundo, que transforma adversários poderosos em marionetes e que ontem atropelou o Santos. O show espanhol nos 4 a 0 em Yokohama foi lindo, magnífico, emocionante. Exibição para ser aplaudida de pé, para ser reverenciada de joelhos.

Mas não é nova nem revolucionária essa maneira de jogar. Pep Guardiola e seus rapazes são ótimos e não reinventaram o jogo de bola. Seguem uma filosofia do clube e adaptaram para os tempos que correm episódios de excelência.

A Holanda de 74, o primeiro Brasil de Telê e a seleção tricampeã do mundo em 1970, para ficar em três exemplos limitados a equipes nacionais, inspiraram o Barça atual. O próprio treinador catalão deu a deixa da chave do sucesso, na entrevista depois da decisão, ao lembrar que o pai lhe contava as proezas dos times brasileiros - incluído aí, claro, o Santos de Pelé. O Barcelona joga como o futebol brasileiro de antigamente, visto como obsoleto por pragmáticos e medíocres que ditam tendências por aqui.

O Santos não foi vulgar nem Muricy Ramalho se revelou um energúmeno. O campeão da Libertadores, assim como já ocorreu com outros incautos, tentou surpreender o Barcelona. O treinador optou por esquema com três zagueiros, fórmula com a qual não está habituado a apresentar-se. Não deu certo, pois faltou qualidade (Durval, Dracena, Bruno falharam em lances cruciais). Saiu tudo errado, principalmente porque a turma catalã joga demais.

O Barcelona é tão superior que reduz times com jogadores experientes a bando de casados e solteiros. Tem tanta consciência de sua altivez que, na medida do possível, liquida as vítimas no primeiro tempo. Como foi ontem. Ou usa o jogo todo para impor-se, como fez em duas finais europeias contra o Manchester United ou nos duelos recentes com o Real.

O Santos poderia ter feito melhor? Até que tentou. A questão foi outra: não viu a cor da bola (71 a 29% de posse) e logo jogou a toalha. Não é hora, porém, de sacrificar Neymar (pipocaram comentários agressivos contra o rapaz), Ganso & Cia. É hora de aprendermos a lição de que o Brasil voltará a ser grande quando tiver a coragem de recuperar o futebol que lhe valeu fama, fortuna, respeito e inveja.

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