A história do menino Ade que virou Tite por um equívoco do professor Scolari

Treinador do Corinthians, quando garoto, tem nome trocado pelo técnico do Palmeiras

PAULO GALDIERI, ENVIADO ESPECIAL / CAXIAS DO SUL, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2012 | 03h03

Familiares e amigos que viram pela televisão, na última quarta-feira, a consagração profissional de Tite como técnico, ao levar o Corinthians a conquistar pela primeira vez o cobiçado título da Libertadores da América, se lembraram naquele instante de como tudo começou, 40 anos atrás, e de como o futebol havia se tornado uma peça fundamental na vida da família Bachi.

Anos 1970, Caxias do Sul. A cena era comum no começo das tardes frias ou amenas da cidade gaúcha. Ade, 12 anos, filho do meio de dona Ivone Mazochi e seu Genor Bachi, se juntava com Miro, seu irmão mais novo (ele ainda tem Beatriz, a mais velha) para jogar futebol. Sem muitos recursos financeiros, os garotos estudavam no Colégio Estadual do Guarani (hoje Henrique Emílio Meyer), onde não havia quadra para o passatempo preferido da família. Para não ficar sem o futebol de todas as tardes, eles não faziam nenhuma cerimônia para pular o muro dos fundos do tradicional (e particular) colégio de freiras da cidade, o Madre Imilda, localizado a menos de 200 metros da casinha onde viviam, numa travessa da Rua Sinimbu, no bairro de Lourdes.

A cena se repetiu por anos e foi o início do contato diário de Adenor Leonardo Bachi, muito antes de ele se tornar o Tite, técnico campeão da América com o Corinthians e um apaixonado pelo esporte de onde tirou seu sustento desde sempre e do qual quase nunca se afasta.

A paixão de Tite pelo futebol vai além de seus compromissos e obrigações profissionais. É parte de sua vida, seja como o técnico de um time de ponta durante uma campanha importante, como a da Libertadores recém-conquistada, seja de folga, entre uma caipirinha e outra ao lado da churrasqueira acompanhado dos mais chegados, contando histórias de quatro décadas no mundo da bola.

Tite por engano. Uma das histórias mais curiosas é de como Adenor, ou simplesmente Ade, como a família ainda o chama, ganhou o apelido célebre: foi tudo um grande engano, cometido por outro gaúcho famoso de Caxias do Sul: Luiz Felipe Scolari.

Aos 14 anos, Tite ainda jogava apenas como amador os torneios entre escolas estaduais. Defendendo seu colégio, o garoto, um meia clássico, camisa 10 às costas, enfrentou o time do Cristovão Mendonza, equipe que era treinada por Felipão, à época um jogador semi amador e já veterano do time do Caxias, que dividia seu tempo com a função de professor de educação física.

Scolari ficou sabendo que o time rival tinha um meia habilidoso, com potencial de se tornar profissional, chamado Ade. Ele fazia dupla de meio-campo do "Emilio Meyer" com outro aluno, um garoto conhecido como Tite. Felipão gostou do que viu no camisa 10, o Adenor, mas confundiu o nome dele e passou a chamá-lo de Tite. Assim ele foi apresentado aos dirigentes do Caxias, onde depois se tornaria profissional e até jogaria ao lado de Scolari no fim dos anos 70.

A vida de Tite é toda direcionada para o futebol. E, como um sujeito apegado à família e aos amigos (os mesmos desde os tempos de colégio), ele arrasta todos a seu redor.

Exemplo disso é que nos dias de folga em Caxias, a diversão principal de Tite é cuidar do Carrossel, o time formado por amigos, e por Ademir (o Miro) seu irmão e companheiro de campos e quadras desde os tempos da puladas diárias de muro e, eventualmente, pelo mais novo elemento do time, Mateus Bachi, 21 anos, filho do treinador e jogador do time na época das férias escolares.

O nome do time é quase um tratado de imodéstia de seus "atletas". Deriva da legendária Holanda da Copa de 1974, conhecida como "Carrossel Holandês" por seu estilo de jogar e de encantar com toques rápidos e "equilíbrio", palavra preferida do técnico.

O Carrossel tem direito a uniforme oficial, foto posada a cada jogo e "casa própria" -o Centro Esportivo e de Lazer Tite (Celte), formado por um par de quadras de futebol society com grama sintética, um galpão com churrasqueira e bar, que aluga espaço para os boleiros de fim de semana.

"Ele não fala de outra coisa. Não tem outro assunto para ele. É futebol, é o Carrossel, é o jeito que o time joga. Ele gosta tanto de futebol que, no início de carreira, já profissional, ele jogava pelo Caxias mas não deixava de viajar com a gente pra jogar peladas", conta Alvaro Mentta, gerente de vendas de uma concessionária de veículos, em Caxias do Sul, e amigo desde a infância.

Essa paixão toda foi nutrida pelo pai, que incentivava Tite se tornar jogador, e a mãe, que aumentou sua produção como costureira para compensar a falta de dinheiro no período mais difícil, quando as contas apertaram e o filho ficou entre abandonar o sonho de virar jogador ou ajudar na renda familiar.

"O pai teve uma época que fez a cobrança. Estava na hora de trabalhar. Mas a mãe disse que trabalhava mais pra deixar ele tentar ser jogador", lembra o irmão Miro, hoje com 46 anos e administrador do Celte. "Era dia e noite costurando para ele poder jogar", complementa a mãe, dona Ivone, 76 anos.

Rituais. Dona Ivone, aliás, é parte importante de dois dos rituais seguidos por Tite como técnico. O primeiro, e mais conhecido, é o de usar nos dias de jogos uma camisa da cor predominante do time que dirige. No Corinthians, o preto é a escolha dele, no Palmeiras, usava verde, no Inter, o vermelho. A ideia veio a partir da iniciativa de sua mãe, que depois do primeiro título dele como treinador, o Gaúcho de 1999 pelo Caxias, lhe deu um terço na cor do time, a grená.

A segunda superstição de Tite que remete à mãe é a ligação no dia da partida. "Ele liga sempre por volta do meio-dia, pede a bênção a ela e pede que reze por ele", diz Miro.

Tite, de fato, tem a religião como um traço marcante de sua personalidade herdada da mãe. "Eu rezo para o santo do dia. Mas tenho o São Jorge como o principal. E foi só outro dia que eu descobri que ele era o padroeiro do Corinthians. Combinou."

Fala muito. A paixão pelo futebol, segundo dona Ivone, não atrapalhou Ade de ser um bom aluno. "Não tenho do que me queixar."

O prontuário escolar de Tite no Emilio Meyer, bem conservado nos arquivos da escola até hoje, mostra que ele era um aluno que oscilava entre notas boas e medianas. Jamais foi brilhante, mas também não estava entre os piores da classe.

Nas observações dos conselhos de classe anuais, entre a quinta série e a oitava do antigo Ginásio, de 1972 a 1975, Tite é descrito por seus orientadores como um aluno que se destaca pela "criatividade, participação, entrega dos trabalhos, interesse". Entre os problemas, detectavam dificuldade com matemática e português.

Nas observações finais de 1974, quando cursou a sexta série, o conselho da escola para Adenor, registrado oficialmente a mão em seu prontuário, foi: "Você tem capacidade para atingir um bom aproveitamento. Dedique-se mais ao estudo, pois tem condições para render mais". Mas a observação mais curiosa é a de que Tite sempre foi bastante falante. "Mais dedicação e falar menos", orientava a escola.

Tite, o treinador vencedor, talvez definisse Ade, o garoto que gostava de futebol, com uma de suas expressões mais conhecidas: "Fala muito."

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