A Holanda não frequenta sua própria escola

JORGE

Jorge Valdano, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2014 | 02h05

VALDANO

A Holanda chega às oitavas com um resultado perfeito, decidindo todas as partidas por dois ou mais gols de diferença e deixando a sensação, apesar de sua juventude, de uma equipe adulta atrás, batalhadora no meio e muito rápida e talentosa na frente. Considero seleções clássicas todas que venceram um Campeonato Mundial, mas incluiria entre elas a Holanda. E não por ter jogado três finais, mas porque é mais importante criar uma escola que influenciou muito o futebol do que ser campeão do mundo.

Há mais de 40 anos a Holanda vem usando a bola para revolucionar o jogo. Ninguém discute que, em termos de estilo, o último Mundial colocou na final duas equipes à holandesa, a própria Holanda e a Espanha. E não restaram dúvidas, tampouco, de que a Espanha foi mais holandesa do que a Holanda. Quatro anos depois, a Espanha morreu na sua lei, e a Holanda se mantém viva dando as costas a sua própria escola. Sei que o debate não é ganho pelo que morre. Ao menos hoje, quando a sensação de fracasso com que a Espanha abandona o Mundial ainda machuca. Mas vejo mais futuro na convicção da Espanha do que nesta traição à essência que a Holanda protagoniza com tanto êxito.

Cruyff já ergueu a voz, com a autoridade do profeta que é, e seguramente sei que será criticado por opinar contra o resultado. Mas é preciso lembrar que, se o bom futebol não sucumbiu à força do pragmatismo, é porque fanáticos como Cruyff se mantiveram firmes em suas ideias - e, em seu momento, demonstraram que o atrevimento e a beleza são eficazes. Estranha que Van Gaal tenha caído na tentação, e com certeza ele tem razões para isso: uma defesa jovem que é preciso proteger, uma bala chamada Robben, que convida a contra-atacar, uma rica experiência que o levou à conclusão de que especular é inteligente. Aliás, ele definiu assim sua vitória contra o Chile: "Ganhou a equipe mais inteligente".

Não imagino tanta indulgência em Menotti, Cruyff ou Guardiola, tipos que jamais negociam suas ideias. E que influem nos Mundiais às vezes sem a necessidade de intervir. A Espanha campeã do mundo tinha coisas (nada menos que até sete jogadores) do Barça de Pep. E a Alemanha, até hoje para mim a seleção mais interessante deste Mundial, tem sete jogadores do Bayern de Guardiola, entre eles Lahm, lateral reconvertido em volante com grande êxito. Invenção de Pep que Löw aproveita na Alemanha.

Vou dizer que todos os estilos são válidos para que se reconheça a amplitude de minhas ideias. Mas não me agrada que um resultado me diga como devo pensar. Prefiro um louco atrevido que enche o futebol de vida, do que a inteligência aplicada ao cálculo, o controle e a especulação. Essa maravilha chamada futebol jamais deveria se converter num ambiente tedioso que, na metade de uma partida, nos faz recordar que a morte existe.

Ou, então, não jogamos para esquecer a realidade?

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