A hora de Tite

O futebol não cansa de imitar a vida e a todo momento apronta das suas. A coincidência da vez é a reestreia de Tite no comando do Corinthians. Cinco anos atrás, saiu do Parque São Jorge porque seu santo não batia com o do então todo-poderoso Kia Joorabchian. Na época, até que fazia bom trabalho, depois de evitar o rebaixamento do time em 2004. Mesmo assim, deixou o clube por interferência do iraniano que era o dono da bola e torcia o nariz para o gaúcho. Agora, no retorno, pega a antiga casa de novo em momento conturbado, pois ficou embaçada a conquista de um título até um mês e meio atrás muito provável.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

Aí entra em cena a ironia. Para qualquer treinador, não é tarefa nem um pouco leve dirigir uma equipe com nervos em pandarecos e com torcedores no cangote dos jogadores. Pior ainda se paira no ar o medo de ver um ano especial como o do centenário passar apenas em branco em vez de alvinegro.

Panorama ruim? Sim, menos para o Tite, porque acabou de chegar. Como restam oito rodadas até o encerramento do campeonato, e como o Corinthians não depende agora só de seus resultados, o técnico vê diminuída a responsabilidade nesse bafafá. Não poderá ser cobrado por eventual fracasso, que se desenhou antes de sua contratação.

A barra pesada sobrou para Adilson Batista. O antecessor de Tite desembarcou de Belo Horizonte com o time quase a nadar de braçada. Estava na liderança, ajustado e se imaginava que o penta seria questão de tempo. Vieram os tropeços, a inevitável comparação com Mano Menezes, a queda para a terceira colocação. Só podia dar em demissão. Adilson foi embora com as orelhas a arder.

Não existe essa perspectiva tenebrosa para Tite. Pela lógica, não será tripudiado nem pela turma que frequenta treinos e gosta de dar preleção para atletas, sob olhar passivo de cartolas. (Se bem que nunca se sabe o que se passa na cabeça de certos torcedores.) Ao contrário, só tem a ganhar. Se a equipe reagir e faturar a taça, o que não é nada improvável, o recém-chegado treinador sairá na foto do título, vestirá a faixa, entrará para a história corintiana como o "mestre" campeão na passagem dos 100 anos.

Com isso, não estou a insinuar que Tite encarou o desafio por considerar pequena a chance de prejuízo pessoal. Ele conhece os riscos e não é novato no ramo. Nem me passa pela cabeça diminuir sua capacidade. Trata-se de constatação - por acaso boa pra ele e para o Corinthians. Por assumir com a alma leve, pode tornar mais fácil a tarefa de reação. Por não ser visto como o salvador da pátria, pode no fim das contas ser o salvador da pátria. Contraditório? Claro. Assim é o futebol. A hora é de Tite.

Para a maré ser favorável a Tite desde o começo, cairá bem uma vitória contra o Palmeiras logo mais no Pacaembu. E não vejo nenhum despautério nessa projeção, apesar de o time amargar jejum de sete jogos na arrancada final da Série A. Pesam em seu favor a presença de Ronaldo e o retorno de titulares como Alessandro, Jucilei e Bruno César. Falta Jorge Henrique para que o Corinthians se exibir com força total.

Outro detalhe animador é o retrospecto contra os grandes rivais paulistas na temporada: cinco vitórias (duas contra São Paulo e Santos, uma diante do Palmeiras), um empate com o Palmeiras e uma derrota para o Santos. Números encorajadores.

Só não vale abusar do otimismo. E não teve gente a enxergar em Ronaldo um carrasco para os palestrinos, porque fez três gols nos dérbis?! Em dois desses duelos, houve empate e no terceiro o Palmeiras ganhou por 3 a 0 - o Fenômeno saiu de campo machucado. Se Ronaldo não bateu o alviverde, quem é a vítima? Exagero tem hora.

Quer dizer que o Palmeiras é zebra no 335.º clássico com seu maior rival? Nem por sombra. Felipão e turma sustentam sequência de nove jogos de invencibilidade - entre Brasileiro e Sul-Americana - e vivem fase estável. Há baixas, mas o time recuperou a autoconfiança e Valdivia. "Dá pra ganhar fácil", inflama-se, aqui ao lado, o Nilson Pasquinelli, diagramador do Estadão que tem sangue verde. Menos, Nilsão! Olha o coração...

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