A hora dos quatro Rs

Veteranos estão na moda. Não,não na São Paulo Fashion Week, onde brilham moças lânguidas e rapazes alinhados. Mas no futebol brasileiro. Quatro vovôs da bola, que poderiam curtir aposentadoria ou estar próximos dela, se destacaram nesta semana, e não necessariamente por façanhas. Há vários pontos de convergência entre eles, além de muitos minutos de silêncio, execução de hinos nacionais, gols e trocas de flâmulas.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2011 | 00h00

Pra começar, são quatro Rs - Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Ronaldo, Rogério Ceni. Quatro trintões - os três primeiros já rodaram demais por aí, antes de voltar pra casa. Quatro pentacampeões do mundo que embicaram na parte final de suas carreiras. Quatro jogadores que tornam maleável o conceito da palavra veterano que abre esta crônica.

Ronaldinho iniciou no Flamengo, na quarta-feira, o derradeiro esforço de mostrar que não se tratou de miragem dissipada no ar. Já está quase a passar a hora de provar que não foi por coincidência eleito duas vezes o melhor do mundo. Mas é fato que, desde os meses que antecederam a Copa de 2006, suas mágicas com os pés se tornaram proezas intermitentes. Em determinados momentos, explodem como obras de arte, para em seguida desaparecerem.

O Barcelona cansou das oscilações do astro e pagou promessa ao santo protetor da Catalunha quando o Milan topou levá-lo embora. Dois anos e meio depois, os italianos devem ter acendido velas para Santo Ambrósio, porque Grêmio, Palmeiras e Fla se estapearam pelo gaúcho. Não deixou saudades em Milão, pelo menos dentro de campo.

Ronaldinho é o mais jovem do quarteto de Rs - em 21 de março completará 31 anos - e teoricamente estaria no auge da carreira, como ocorreu com tantos ídolos, de Pelé a Rivellino, de Beckenbauer a Cruyjff. Mas na prática não é bem assim. Talento não lhe falta; constância, sim. A estreia no Flamengo foi bacana: ele se movimentou, cobrou faltas e escanteios, deu passes, driblou, arriscou chutes a gol. O renascimento está por sua conta. Disputar o Mundial de 2014 não pinta como sonho fora de propósito. Dependerá sobretudo de sua cabeça.

Cabeça boa e pés calibrados não faltam para Rogério Ceni. Dia 22, dobrou os 38 anos e não parece nada propenso a pendurar as luvas. No que faz muito bem. O maior ídolo do São Paulo, perto dos 1000 jogos e dos 100 gols marcados com a camisa tricolor, tem a dedicação dos iniciantes. Talvez os reflexos não sejam os mesmos de duas décadas atrás, os erros ocorrem com mais frequência, mas o crédito é enorme. Rogério tem lastro, tem carisma e uma pontaria que vou te contar! O gol de falta contra o Linense, na quinta-feira, entra para sua coleção de obras-primas na bola parada.

Emocionante ver Rivaldo desfilar pelo gramado do Morumbi como jovenzinho de quase 39 anos. O tempo avança, porém se mantém firme, elegante, com controle de bola extraordinário, senso de colocação apurado, visão de jogo acima do comum e uma habilidade invejável. O camisa 10, que para mim foi o melhor jogador da Copa de 2002, deu demonstração de arte e de respeito a si próprio com o recital de estreia. Jogou o fino e fez gol de antologia.

Rivaldo empurra para escanteio a noção de velho. Não sei se terá fôlego e pernas para suportar o ritmo da temporada. Torço para que dose o esforço com sabedoria e assim brindar os fãs com presença constante. Com a certeza de que pertence à casta dos profissionais que transcendem paixões clubísticas. É admirado por todas as torcidas, por quem ama futebol. Vaiar Rivaldo é pecado mortal e atestado de estultice (obrigado, professor Trivinho) com firma reconhecida.

Por respeito ao que conquistou em carreira fenomenal, Ronaldo deveria fazer exame de consciência. A condição física precária e o futebol que tem mostrado são condizentes com sua história? É justo ver-se hostilizado pela torcida que até anteontem o idolatrava? Mas está certo entrar em campo sem preparo, sem reflexos, como sombra de um deus da bola? Ronaldo suou, sofreu e encantou para chegar aos 34 anos como um mito. Agora precisa cuidar-se para não virar um mico.

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