Imagem Antero Greco
Colunista
Antero Greco
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A hora e a vez do craque

Qualquer semelhança do título desta crônica com "A hora e a vez de Augusto Matraga" não é coincidência. Trata-se de plágio e homenagem descarados ao conto de Guimarães Rosa que está na obra-prima Sagarana. Uma reverência a um craque da literatura nacional estendida a um astro da seleção brasileira. Neymar foi o nome do jogo contra o México e o responsável pela vitória por 2 a 0, com um gol e uma jogada espetacular que Jô teve apenas o trabalho de concluir.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2013 | 02h06

O destaque em Fortaleza não foi o bonito estádio nem a participação entusiasmada do torcedor - e irônica, também, pois muitos levaram cartazes de protesto e contrariaram normas da Fifa. Tampouco a classificação antecipada para a semifinal da Copa das Confederações - era bola cantada e obrigação. Deu gosto mesmo acompanhar, no Castelão, o recital de Neymar.

O rapaz chamou a responsabilidade, para ficar num chavão do futebolês, e mandou ver: driblou, apanhou, arrematou, fez um gol, criou oportunidades para outros e fechou o recital com entortadas em três defensores na construção do placar definitivo. Neymar ciscou, como se espera de um atacante, recuou para ajudar o meio-campo, segurou a bola quando necessário. Comportamento tático e técnico impecáveis, à altura da camisa 10 que resolveu usar ao defender a amarelinha a partir desta competição prévia do Mundial. E é a 10 mais pesada do mundo, uma época sacralizada por Pelé.

Neymar despedaçou, em duas rodadas, algumas bobagens e estereótipos que se ergueram em torno de si. A primeira quebra veio ao balançar as redes logo no início da partida com o Japão. Daquela maneira, deu um bico na história de que se aproximava do mais longo jejum pessoal de gols. Um desses números inúteis que hoje em dia se utilizam para constatar verdades definitivas que não dizem nada. A outra se refere ao sumiço em jogos da seleção, uma das críticas mais recorrentes. Assim como no sábado, foi o mais participativo do time, o principal fator de desequilíbrio.

Aos poucos, Neymar vai ver-se livre das paixões clubísticas que estavam na raiz de parte das restrições ao comportamento dele. Como agora bateu asas, para jogar no Barcelona, abriu brecha para a dor de cotovelo de muitos se transformar em aplausos, sem que isso pareça contraditório. Neymar não é mais do Santos, mas só brasileiro.

Ao assumir a liderança do grupo, o moço repete algo que o torcedor de seu ex-clube conhece de cor e salteado: sua presença é fundamental, o time se amolda em volta dele. Com o que isso tem de bom e de ruim. Jamais se deve lamentar ou menosprezar a força do craque. Ao mesmo tempo, é interessante testar alternativas para suprir eventual ausência. Repare como, desde os tempos de Mano Menezes, ele raramente é dispensado de convocações ou substituído nos jogos. Os técnicos perceberam logo o valor que tem. Ou seja, bom parar com a infâmia de que é enganação e não passa de produto de marketing, de mídia. Ou farsa.

Neymar merece rasgação de seda. E a seleção? Um pouco menos de badalação. Felipão repetiu escalação inicial pela terceira vez, e a frequência com que os atletas atuam juntos ajuda a aumentar entrosamento e a consolidar esquema. Nota-se que aumentam jogadas de uma turma que se conhece, há menos dificuldade para deslocamentos, descidas ao ataque e cobertura da defesa. Isso é resultado do conjunto.

Falta, no entanto, ousadia na criação - Neymar à parte. Oscar amadurece, porém oscila na função de regente. Na partida de ontem, esteve aquém do habitual e cedeu lugar para Hernanes, como no final de semana. Felipão seguiu o padrão das mudanças, com Lucas em lugar de Hulk e Jô na vaga de Fred. A insistência nessas trocas dá uma pista de eventuais dúvidas do treinador para fechar o bloco titular. E Jô, com os gols em cima da hora, sem alarde e devagar cava uma boquinha. Filme parecido com aquele de Luizão em 2002.

O Brasil permanece no patamar de time normal, com bônus adicionais: acumula vitórias, aplaca tensão, dilui desconfianças e principalmente descobre que tem uma estrela: Neymar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.