A hora (e meia) da verdade

É fato que nem sempre o melhor time vence e que há muitos que ficaram na história sem conquistar o título que almejavam, como a Holanda de 1974 e o Brasil de 1982. Mas que há partidas no futebol que põem à prova o estilo de uma equipe, separando a glória e a decepção, não resta dúvida. Pergunte a qualquer jogador se ele não preferia uma taça a qualquer elogio. Ainda que raramente as explicações que vêm depois da derrota crucial façam justiça a todos os fatores, a mácula não se apaga. E não apenas para times, mas também para craques. O grande barato do futebol é o que está acontecendo agora: a expectativa em torno de jogos decisivos, que porão conjuntos e atletas no céu ou no inferno, de 90 minutos que poderão nos fazer dizer "Eu vi, eu estava lá".

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2010 | 00h00

Revi recentemente na TV a derrota para a Itália em 1982, a célebre "tragédia do Sarriá", que muito marcou minha geração, já que Zico, Sócrates, Falcão e companhia eram ídolos de qualquer menino que chutasse bola em qualquer canto do Brasil. A vitória da Itália passou aos registros - ou pelo menos à maioria deles - como o fim do futebol-arte, do futebol de toques e gols bonitos. Agora veja a partida com olhos livres. Aquele time da Itália não tinha o mesmo número de craques, mas contra o Brasil não jogou na retranca, fazendo faltas, dando chutão, apostando em bola parada: nada disso! Foi para cima, concentrada em roubar a bola e partir para a área, com Antognoni dando dribles, Paolo Rossi se movimentando, Conti procurando o ataque. Houve marcação individual em Zico e o goleiro Zoff fez belas defesas, mas não foi um jogo de um campo só. E o Brasil pagou por seus erros pontuais, como a saída de Cerezo e o posicionamento de Júnior. Não foi a antiarte que determinou o placar.

O Santos dos meninos Neymar e Ganso tem experimentado esse equívoco de ambos os lados. Se perdesse (ou ainda perder) para o Santo André, não seriam poucos os que diriam "Tá vendo, não adianta nada jogar bonito", como se até aqui o time não tivesse se destacado por ganhar bonito, apenas por firulas ou criancices. Há apagões e oscilações, naturalmente, sendo uma equipe jovem, ousada e irregular, e no primeiro tempo foi o Santo André que se mostrou criativo e ofensivo. Mas o talento se impôs e a blitz do início do segundo tempo acuou o adversário e trouxe a virada, mesmo que posta em risco depois e com um jogador a mais. Neymar se machucou e Ganso foi fundamental, mas seria injusto determinar por isso quem deve ir para a seleção e quem não deve. No entanto, há jogos que terminam tendo esse valor. É duro, mas é assim.

Que o digam Adriano e outros hoje no único duelo brasileiro da Libertadores, Flamengo x Corinthians, no Maracanã. A torcida e a imprensa - mais parecidas do que pensam - já antecipam o que será dito caso um ou outro vença. Uns dizem que o Flamengo está em pior fase e com técnico interino, com muitos atletas em crise; mas joga em casa e às vezes a saída de um técnico provoca os jogadores a mostrar serviço. Outros lembram que o Corinthians teve a melhor campanha e por isso faz a segunda partida no Pacaembu, onde costuma perder pouco; mas Ronaldo ainda não brilhou neste ano e o time mostrou carências na criação. Se Adriano marcar, dirão que ele é ou está melhor que Ronaldo; se Ronaldo marcar, dirão que mesmo gordo é um craque com uma história que Adriano jamais replicou. Mas a narrativa do jogo pode ser bem menos óbvia e depender bem mais de acasos e distrações. Isso não significa que não possa ser um marco na carreira de ambos.

A hora da verdade chamada Copa do Mundo está chegando também. Messi, que hoje tem a missão de liderar o Barcelona para vencer a Inter de Milão por dois gols; Kaká, que voltou no domingo fazendo o gol da vitória do Real Madrid; Ganso, mais cotado para a convocação de Dunga, pois o Brasil não tem armadores - todos eles sabem que no futebol, sim, às vezes se jogam quatro anos em quatro partidas.

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