A intolerância desconhece fronteiras

MEMÓRIA

Fábio Vendrame, O Estadao de S.Paulo

26 de junho de 2009 | 00h00

Como costuma dizer o presidente da Fifa, o suíço Joseph Blatter, o futebol é reflexo da sociedade e, como tal, se vê invariavelmente ofuscado pelo racismo. Casos de preconceito racial no mundo da bola continuam a ocorrer por toda parte, embora venham sendo feito esforços no sentido de coibi-los. No Brasil, particularmente, o episódio mais emblemático ocorreu em 2005, quando Grafite prestou queixa contra o zagueiro argentino Desábato, alegando que havia sido chamado de "macaco". O acusado foi levado à delegacia e só foi liberado depois de 40 horas de espera mediante o pagamento de uma multa no valor de R$ 10 mil.Mais recentemente, durante a disputa de um jogo em Caxias do Sul pela Série B no ano passado, o goleiro corintiano Felipe afirmou ter sido alvo de insultos racistas por parte de torcedores do Juventude. Apesar da repercussão, o caso acabou sendo abafado pelos clubes. Assim, ficou o dito pelo não dito, nada se comprovou e, por extensão, ninguém foi responsabilizado.Antes disso, no Campeonato Gaúcho de 2006, o mesmo palco presenciou insultos racistas do à época zagueiro Antônio Carlos, do Juventude, contra o jogador Jeovânio, do Grêmio. Denunciado, acabou punido pelo Supremo Tribunal de Justiça Desportiva e ficou suspenso por 120 dias.Ocorrências lamentáveis como as citadas têm sido ainda mais recorrentes nas praças esportivas europeias - ao menos vêm a público com mais frequência que no Brasil. Em abril, Udo Voigt, presidente do Partido Nacional Democrata da Alemanha (NPD), de extrema direita, foi condenado a uma pena de sete meses sob liberdade condicional por incitação popular e ofensa racista. Sua legenda distribuiu folhetos na Copa de 2006 em ofensa ao jogador negro Patrick Owomoyela. O material trazia a inscrição "Branco: não apenas a cor da camisa! Por uma seleção verdadeiramente nacional!" e exibia imagem com a camisa da seleção alemã e o número de Owomoyela.Raras vezes, contudo, verifica-se um ato de desagravo público como o do jogador Fabio Liverani, primeiro negro a vestir a camisa da seleção italiana. No fim do ano passado, o meia disse sentir vergonha de seus compatriotas que pregam a intolerância racial.Agora, ao organizar o primeiro Mundial no continente africano, a Fifa tem o dever de abordar o tema de forma mais contundente e, oxalá, definitiva. Como o próprio Blatter diz, "o racismo já não pode mais ter lugar no futebol."

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