A Libertadores e seu futebol feio

Boleiros

Ugo Giorgetti, ugog@estadao.com.br, O Estadao de S.Paulo

16 de maio de 2009 | 00h00

Será que o futebol do Campeonato Brasileiro é muito diferente do futebol da Libertadores? Tendo a acreditar que sim. Mesmo quando times brasileiros jogam entre si pela Libertadores, o jogo me parece totalmente diferente. Pode ser que eu veja a coisa de maneira precipitada, para não dizer preconceituosa, mas acho que a Libertadores obriga a um tipo de jogo mais pesado, mais feio, mais pragmático. Minha grande esperança para contrariar o que acabo de dizer é o Cruzeiro. Espero que a leve e técnica equipe mineira possa ter um caminho mais longo nessa competição. Terá uma dura prova contra o São Paulo, este sim jogando sempre no estilo Libertadores, ainda mais porque tem larga tradição na competição, e tradição de êxitos. Mas que é feio é feio.Esse estilo Libertadores chegou ao Brasil pelo Sul, pelas equipes gaúchas mais próximas geograficamente de grandes ganhadores de Libertadores, como os uruguaios e os argentinos. E pouco a pouco, à força de imitar ganhadores, esse estilo foi subindo País afora e na competição atual o Sport Recife, por exemplo, não fica nada a dever a qualquer equipe do Sul em matéria de futebol força. Uma equipe se impõe à outra, porque tem mais força e "determinação", de preferência auxiliada pela torcida. O regulamento mata-mata também ajuda nessa exacerbação de vigor, já que cada jogo fica sendo de vida ou morte. Daí vale mais a garra do que qualquer outra coisa. Impede também decisões que envolvam qualquer tipo de audácia ou de iniciativa. Quem acompanhou os dois jogos Palmeiras e Sport é capaz de atestar isso. Os dois times jogaram de modo absolutamente idêntico, com o regulamento na mão, variando apenas suas posições momentâneas. No primeiro jogo o plano do Sport era perder até por 1 a 0 e quase perdeu por 2. No jogo no Recife o Palmeiras jogou com o regulamento, recuado. O plano era perder até por 1 a 0 e quase perdeu por 2. A pergunta é: poderiam ter jogado de outro modo? Se você fosse o Luxemburgo, ousaria pôr o time pra frente no Recife? E, se por azar, o Sport abrisse a contagem com menos de vinte minutos de jogo? Certamente seria chamado de burro, arrogante e incompetente. Não correu riscos pessoais e fez o que seria mais facilmente perdoável. Todos fazem mais ou menos isso e nesse caso dá-lhe divididas e pontapés na bola e no adversário.Vale tudo. É jogo de Libertadores. Quem gosta futebol pegado adora. Eu acho que empobrece. Me pergunto se o gol do Nilmar contra o Corinthians poderia ter sido feito num jogo de Libertadores. Duvido. Ao driblar o segundo adversário já estaria no chão. Talvez derrubado até por algum atacante adversário que estivesse "ajudando na marcação" tangido por gritos histéricos vindos do banco. Só espero que esse tipo de jogo não acabe contaminando completamente o Campeonato Brasileiro e que um dia Libertadores e Brasileiro sejam jogados do mesmo jeito. Uma coisa, porém, tenho que admitir: muitas vezes a feiura de certos jogos da Libertadores é compensada por uma dose de emoção quase insuportável. Primeiro o tempo, de uma sinistra lentidão, que parece não passar nunca.Depois os pênaltis. Qual a mente diabólica que terá inventado a decisão por pênaltis no futebol? Esse cidadão, uma vez identificado, deveria ser responsabilizado criminalmente por enfartes e hospitalizações de emergência...

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