A magia da bola

Numa dessas conversas de fim de expediente, recentemente, o amigo e jornalista Wilson Baldini Jr. fez observação com a qual concordo: "O futebol passa por crise técnica". Quem, por exemplo, elegeríamos para concorrer com Messi ao título de craque do ano, como faz a Fifa? Hoje temos grandes jogadores, mas pouquíssimos superastros internacionais. Nem por isso ele tem perdido emoção ou contabilizado redução no número de seus fanáticos seguidores. Ao contrário! Dois jogos do Brasileirão anteontem atestaram, novamente, por que se trata do esporte mais popular do mundo.

Eduardo Maluf, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2011 | 00h00

Gols, grandes jogadas, erros incríveis, alternância no placar. Numa mesma noite - épica, por sinal -, a bola criou heróis e vilões, personagens que viverão dias distintos pelo menos até a próxima rodada. Refiro-me, claro, a Santos 4 x 5 Flamengo e Coritiba 3 x 4 São Paulo. No Couto Pereira, 26 mil pessoas prestigiaram o Coxa, apesar do frio, e, na Vila, 13 mil assistiram a uma das partidas mais espetaculares dos últimos tempos.

Numa época em que a informação chega cada vez com mais velocidade e as notícias são precocemente descartadas, um jogo de meio de semana cai, em algumas horas, no esquecimento. Certamente não é o que ocorrerá com os dois citados acima.

Ronaldinho Gaúcho e Neymar encheram os olhos do torcedor. O flamenguista jogou como nos tempos de Barcelona, com lances notáveis e três gols, um deles genial - aliás, vale a pena guardar a brilhante atuação, rara nos últimos cinco anos. E o santista humilhou a defesa adversária, com dois belos gols (um de placa) e passes precisos. Um clássico para ficar na eternidade!

Pode parecer antipático falar em vilão num confronto como o da Vila. Mas não dá para ignorar a cobrança de pênalti displicente de Elano, dez dias depois de ter falhado com a seleção na Copa América. O meia, em tom humilde, reconheceu o erro e se desculpou com a furiosa torcida alvinegra. O goleiro Felipe, após a defesa na "cavadinha" do adversário, também não precisaria ter feito embaixadinhas com a bola. Não sou daqueles que acham que tudo tem de ser politicamente correto, mas bom senso e responsabilidade não fazem mal a ninguém. Ele havia sofrido três gols em menos de meia hora. Felipe, embora seja um respeitável camisa 1, peca muitas vezes por seu comportamento imaturo.

Assim como pecaram os santistas após terem aberto 3 a 0 no placar. Um time com a categoria do Santos, atuando em casa, não pode permitir uma reação tão impressionante do oponente. O Flamengo, claro, teve méritos e contou com Ronaldinho Gaúcho em apresentação iluminada, mas a equipe da Baixada relaxou, afrouxou na marcação e deixou a simplicidade de lado. Pagou caro e, no futuro, vai lamentar os 3 pontos perdidos.

Ao mesmo tempo em que premia craques como Ronaldinho e Neymar, a bola pune. Foi por pouco que o São Paulo não saiu de Curitiba com um resultado desastroso numa partida memorável. Por ter também se acomodado. Vencia o Coritiba por 4 a 0 (com um bonito gol do menino Lucas) até a metade do segundo tempo e tinha um jogador a mais em campo. O espectador que desligou a TV aos 20 minutos da etapa final e foi para a cama provavelmente levou um susto ontem pela manhã. Os curitibanos fizeram três gols e tiveram chance de igualar o marcador no fim. O empate seria um justo castigo para os são-paulinos e um merecido prêmio para o valente time da casa. A torcida, em reconhecimento ao esforço, aplaudiu de pé os atletas.

A magia do esporte bretão foi celebrada também na Europa anteontem. Se não tivesse assistido à final da Supercopa da França, eu não acreditaria no que ocorreu na cidade de Tanger, no Marrocos. O Olympique de Marselha conquistou o título ao vencer o Lille por 5 a 4. Até os 40 do segundo tempo perdia por 3 a 1. Isso significa que cinco dos nove gols surgiram nos minutos finais.

Por mais que muitos dirigentes de clubes, entidades nacionais e da Fifa usem a bola como meio para tirar proveito pessoal, o futebol deu mais uma mostra, nesta quarta-feira, de que é imortal.

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