A melhor balada

Felipão usa um argumento sólido para explicar por que não chamou Kaká para o amistoso contra a Inglaterra: é preciso vê-lo jogar pelo Real Madrid para saber se pode ou não estar na seleção. Felipão não diz isso abertamente, porque sabe que a frase pode ser usada contra ele mesmo, mais tarde. Se precisar de Kaká e convocá-lo sem estar jogando, será acusado de incoerência.

Paulo Vinícius Coelho, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2013 | 02h05

Azar!

Coerência nunca foi qualidade de técnico de futebol. É melhor ser incoerente e vencer jogos, do que perdê-los abraçado às convicções.

Em 2004 e 2005, anos dos prêmios de melhor do mundo para Ronaldinho Gaúcho, Felipão era técnico de Portugal, podia votar no brasileiro, mas não o elegeu como o maior craque do planeta.

Incoerência chamá-lo agora?

Não! É preciso escolher um experiente para servir de apoio à juventude de Neymar, Oscar e Lucas.

"Felipão está à procura de um Romário da Copa de 94. Por isso, chamou Ronaldinho", pensa o presidente do Atlético-MG, Alexandre Kalil.

Kalil não é neutro: "Fiz preces para Ronaldinho ser convocado, porque ele vai ajudar ainda mais o Galo se estiver motivado."

O dirigente apostou e contratou o ex-melhor do mundo, no ano passado, assim como Felipão parece apostar agora. Deu certo.

Em outros tempos, sem brilho nos olhos, o meia foi um exemplo bem acabado para um velho lema de Felipão: "Jogador bom é jogador com fome." Alexandre Kalil diz a mesma coisa com outras palavras: "Jogador com R$ 100 milhões na conta bancária é fogo..."

À primeira vista, a convocação de Ronaldinho e a ausência de Kaká se assemelham a uma carta de intenções. Felipão quer dizer que conta com Ronaldinho, julga-o capaz de ajudar a levantar a taça?

Não é bem isso.

Mais correto é afirmar que o técnico da seleção está testando a motivação de seu convocado. Quer Ronaldinho menos baladeiro e mais boleiro. Caso contrário, Felipão colocará em prática outro de seus mandamentos: "Se não tiver vontade, eu troco."

Parece justo tanto com a seleção, quanto com seu novo-velho camisa 10.

Ronaldinho tem uma chance rara. O melhor do mundo eleito em ano de Copa normalmente é quem se destaca mais do que os outros no Mundial. Ronaldinho pode trabalhar para ser o melhor do torneio, no próximo ano. Jogar a final no Maracanã, fazer o gol do título, levantar a taça e fechar o ciclo, aos 34 anos, aclamado como o melhor jogador do planeta.

Improvável, sem dúvida.

A não ser que Ronaldinho demonstre, sob os bigodes de Felipão, a ânsia que difere os imortais dos caras comuns. O brilho nos olhos que Felipão testa e quer saber se Ronaldinho ainda tem.

Quando abre o jogo, Felipão não acredita que o ex-melhor do mundo possa fazer um Mundial do tamanho necessário para encerrar a carreira no topo da lista dos gênios.

Alexandre Kalil vê as coisas de um jeito um pouco diferente: "O cara é um assombro! E olha que vi Reinaldo jogar pelo Galo... Além disso, aprendi que, para um craque, nada é impossível!"

Se Ronaldinho pensar bem, vai chegar à conclusão de que vale a pena tentar. A Copa tem só sete jogos.

Mas, para ele, começa em Wembley, dia 6 de fevereiro.

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