À moda uruguaia

Para que o Uruguai seja o Uruguai não é necessário uma final no Maracanã, basta uma partida na primeira rodada na qual vida e morte deem as mãos. Melhor ainda se for contra a Inglaterra, uma seleção cuja tradição tem raízes antigas, e o futebol uruguaio se relaciona bem com a palavra "história".

Jorge Valdano, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2014 | 02h01

A seleção uruguaia perdeu da Costa Rica "por não jogar à moda uruguaia" e ganhou da Inglaterra "porque jogamos como uruguaios" (disse Cavani). Não se trata de pensar num estilo definido. O Uruguai joga sem desprezar nenhuma das possibilidades oferecidas pelo futebol. Se estiverem ganhando, saberão se defender; se estiverem perdendo, atacarão com urgência; se a partida for dura cerrarão os dentes; se for necessário perder tempo, eles o farão com inteligência; se jogam contra duzentas mil pessoas, desafiam todas elas… Jogam para ganhar, sem nunca enlouquecer pensando em como vencer. Devem pensar que, para debater questões de estilo, é preciso viver num país de mais de quarenta milhões de habitantes. Num "pequeno país" de quatro milhões de habitantes, o futebol é mais um problema de sobrevivência - e até de honra - do que uma questão de estética.

É maravilhoso ver que o primeiro país a conhecer a glória futebolística mundial é também o último a perder a humildade. Tanto faz o nome do jogador: todos remam com a mesma força e na mesma direção. É isso que significa jogar à moda uruguaia. Mas, se quisermos falar de sacrifício, tomemos como exemplo Luis Suárez, que foi submetido a cirurgia dias antes do início da Copa e colocado em campo contra a Inglaterra. Aos 40 minutos do segundo tempo, quando já era ameaçado pelas cãibras, correu atrás de uma bola com o desespero de um afogado, aplicando nela um chute com a potência de um canhão para gritar gol com a emoção de um uruguaio.

Mas Suárez nos fez pensar em talento. Ele jogava diante de companheiros com quem tinha convivido e contra rivais que o tinham enfrentado durante a temporada passada. Assim, eles o conheciam bem, e o temiam como a uma maldição. Ainda assim, não encontraram antídotos para deter sua extraordinária capacidade de buscar espaços na área e os cantos do gol. No primeiro tento, uma cabeceada precisa e até brincalhona para buscar o contrapé do goleiro; no segundo, fuzilou com um pontapé. E, atrás, uma equipe de espírito solidário, com senso de pragmatismo e uma energia inegociável que transforma uma figura mundial como Cavani em atacante do jogo.

Milhares de uruguaios festejaram a vitória como se fossem jogadores e todos os jogadores festejaram como se fossem torcedores. Uma comunhão impressionante num país que deve ao futebol boa parte do seu orgulho e identidade, feliz por viver agora mais um capítulo de uma história incomparável: porque era a Inglaterra, porque Suárez conseguiu um prodígio, porque a seleção segue viva… Porque o Uruguai jogou como Uruguai.

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