A noite mágica de um jovem zagueiro

Quarta-feira última nos encontramos por acaso, eu saindo de casa, ele passando exatamente naquele momento. Conversamos um pouco como bons amigos e depois cada um seguiu seu caminho. Só voltei a pensar nele quando, no mesmo dia, comecei a ler notícias sobre os setenta anos do Pelé. E ao falar de Pelé obrigatoriamente me veio ao pensamento a figura do meu amigo. Revi aquele senhor elegante caminhando por uma das ruas de Perdizes, como se fosse mais um dos habitantes anônimos do bairro, carregando silenciosamente sua história que, num dado momento, se confundiu com a própria história do Rei do Futebol.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

Tarefa. Esse meu amigo era um jovem zagueiro, recém-promovido a titular de um grande clube e sua próxima tarefa era marcar Pelé. Estou falando de um tempo recuado, quando marcar era função de zagueiro. Os jogadores de meio-campo da época, com raras exceções, marcavam pouco.

O combate era dado diretamente quase só pelos zagueiros. E era o Rei que meu amigo ia marcar. O Rei no auge. Bicampeão mundial pela seleção e pelo Santos, não sei quantas vezes artilheiro de campeonatos e torneios, maior jogador do mundo.

Tensão. A semana começou tensa. Meu amigo nunca tinha jogado antes contra Pelé. Revelado fazia pouco tempo, nunca tinha enfrentado o Santos e o Rei. Tinha vinte anos. Passou a semana ouvindo conselhos, advertências, sugestões. Cada um tinha alguma coisa pra dizer. Não havia ainda, nesse tempo, as torcidas organizadas, por isso os conselhos partiam mais dos dirigentes e de torcedores encontrados por acaso.

O clima foi se tornando quase irrespirável. Pouco antes da partida, o jovem jogador foi tão pressionado que, já uniformizado, tirou a camisa e ameaçou não entrar em campo. Era só uma ameaça. Claro que ele ia entrar em campo. Mas dá uma boa ideia do clima no vestiário. As equipes foram a campo com o estádio superlotado.

Parada dura. Meu amigo começou a fazer um nervoso aquecimento, enquanto observava o Rei fazendo a mesma coisa do outro lado. E lhe ocorreu que nunca antes tinha visto o Rei de perto. Parece incrível, mas como estava iniciando carreira nunca tinha encontrado Pelé. Pôde ver o quanto, além de tudo, era forte e vigoroso. A parada ia ser dura.

Dura para todos. Se para ele tinha sobrado Pelé, para seu companheiro de zaga sobrava Coutinho ou Toninho Guerreiro. Assim era o time do Santos. Poucos segundos antes de a bola rolar, porém, uma estranha calma se apoderou dele. Não tinha nada a perder. Se não conseguisse marcar Pelé, qual o problema? Quem conseguia? Com essa tranquilidade jogou a partida. E nessa noite o rei não jogou. Parou na jovem revelação e o Santos perdeu.

Fogueira. Depois do jogo foi uma loucura. Conseguiu com muita dificuldade sair do estádio, pegar seu carro ir para casa. Seu trajeto o levou a cruzar a Ipiranga com a São João.

Exatamente no meio do cruzamento das mais famosas avenidas de São Paulo pôde ver uma enorme fogueira e torcedores comemorando ao redor dela. Uma fogueira no cruzamento de Ipiranga e São João!

Tabu. Esse fato dá a dimensão da importância da partida e da loucura que se apoderou de toda a cidade. Foi na noite de 6 de março de 1968. O Corinthians tinha acabado de quebrar um tabu de onze anos sem vitória sobre o Santos, com Pelé e tudo.

O jovem zagueiro corintiano que anulou o Rei do futebol nessa noite, no primeiro dos muitos encontros que se repetiram depois, é meu amigo Luiz Carlos Galter.

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