A nova Musa

Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta. O que esses versos de Os Lusíadas têm a ver com o futebol, que nem existia (pelo menos como o conhecemos hoje) na época de Luís de Camões? Na teoria, nada. Nesta crônica, fazem sentido. Lembrei do bardo lusitano por causa do Campeonato Brasileiro. Ficou mais confusa a aproximação? Calma, e explico o porquê da comparação.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2011 | 00h00

A partir de amanhã, o que se disputou até agora ou fica para trás ou passa momentaneamente para segundo plano. A maioria dos Estaduais, com seus campeões e polêmicas, viraram registro, páginas arrancadas da folhinha do calendário futebolístico. Copa do Brasil e Libertadores saem de foco de grande parte dos clubes. O olhar volta-se para o torneio da elite nacional, aquele que conta mais, a nova Musa, com pontapé inicial amanhã e que se estende até dezembro.

Os 20 melhores times de 2010 (incluídos aqui os 4 que vieram da Série B) correm mais uma vez atrás do troféu que simboliza a hegemonia doméstica. Pelo nono ano consecutivo, o campeão sairá da disputa de todos contra todos, em turno e returno. Fatura a taça quem somar maior número de pontos. Os quatro piores escorregam para o patamar de baixo. Fórmula simples, resumida em duas ou três frases, sem mistérios.

Ainda assim, não faltarão discussões em torno da eficiência do regulamento. A mais manjada é a que o considera entediante, sem graça, porque não prevê os malfadados mata-matas. Para que não pairem dúvidas, reafirmo que prefiro o formato atual, por premiar regularidade, planejamento e estratégias de longo prazo. Quem tem competência se estabeleça, dizia Toninho Cazzeguai, filósofo de bares e várzeas do Bom Retiro. O outro serve para Libertadores, Copa do Brasil, Mundial. Deixa quieto o que está bom.

O campeonato, como sempre, será dividido em duas fases, e que não se confunda com turno e returno. A primeira parte compreende período curto, de três meses, três meses e meio. Vai até o fim de agosto, quando fecha o mercado de transferências na Europa. Nossos clubes começarão com uma formação-base, mas sofrerão baixas à medida que alguns jogadores se destaquem e chamem a atenção dos endinheirados de fora.

Após a revoada de talentos, e uma ou outra volta de veterano ou sem mercado no exterior, se disputa a Série A de fato, com os elencos definidos ou definhados até o encerramento da temporada. Costumam dar-se bem as equipes que acumulam pontos antes de se verem obrigadas a ceder astros para equilibrar suas contas e engordar o saldos dos investidores, essa praga moderna que, parece, veio para ficar no futebol.

Como a tendência para mutações é inevitável, cravar favoritos desde já é exercício de futurologia e casca de banana para os críticos. Mas, como já afirmei em inúmeras ocasiões, não tenho medo de errar. Não me incluo na lista dos autossuficientes, daqueles que temem expor-se, mas preferem expor os outros.

Isto posto, sem mais delongas, englobo no rol dos candidatos participantes coroados como Santos, São Paulo, Cruzeiro, Grêmio, Inter, Flu e o fenômeno Coritiba. Não desprezaria forças como Corinthians, Atlético-MG e Flamengo, que largam na segunda fila. Palmeiras, Atlético-PR, Botafogo, Vasco, Bahia pintam como coadjuvantes. Ceará, Avaí (surpresas na Copa do Brasil), América-MG, Atlético-GO e Figueirense poria na turma de baixo. Os integrantes deste bloco podem ser, no fim das contas, os fiéis da balança.

Há risco de enganar-me? Enorme. O Brasileiro sofre do mal crônico do êxodo e consequente enfraquecimento dos times. Mesmo assim, continua a ser dos mais equilibrados do mundo. No mínimo porque, de antemão, a briga pelo título não se restringe a dois ou três. Torçam o nariz os esnobes, os que sonham com Europa: continuo a curtir o futebol daqui, vibro e sofro por equipes com nomes que me são familiares e tão charmosos quanto os badalados Real, Barcelona, Milan, Manchester. Aliás, jamais me verão na Paulista a comemorar conquistas dessas venerandas agremiações gringas. Com todo o respeito.

P.S. Gastei quase todo o espaço a falar da Série A. Mas, espera aí: a série B começa hoje, também com 20 clubes, 35% deles paulistas: Lusa, Guarani, Ponte, São Caetano, Bragantino, Americana e Grêmio Prudente, que fazem um Estadual à parte. E 35% são da região Nordeste. Vai ser bom.

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