A nova proeza de Roger, um carioca

Boleiros

O Estadao de S.Paulo

13 de julho de 2008 | 00h00

Ser carioca é ser um artista da sobrevivência. É caminhar numa corda bamba, é se equilibrar sobre um fino cabo, atento para não cair, com um olho no deslumbrante poente do Leblon e outro no morro mais próximo, de onde pode vir uma desagradável surpresa.O maravilhoso recorte geográfico também esconde armadilhas, e esse diálogo sem fim entre beleza e violência às vezes produz um tipo humano que, em falta de melhor palavra, eu chamaria de carioca perfeito. Não é nada daquilo que o senso comum e os preconceitos atribuem ao carioca, não tem nada de malandro menor, não engana ninguém. É apenas alguém que se acostumou à proximidade da beleza e das boas coisas da vida, sem esquecer que precisa se defender do outro lado, escuro e ameaçador.Quanto mais ouço falar e acompanho a carreira de Roger Flores mais me convenço de que estou diante do carioca perfeito. Sua contínua presença e seu sucesso no futebol só são explicáveis por um incrível talento na dificílima arte de caminhar sobre abismos. Tem trinta anos de idade e desde os dezoito joga do mesmo jeito. Não corre,não marca, não gosta de treinar, se contunde com facilidade, não dispensa as delícias da vida noturna e é sempre um dos culpados pelas derrotas e fracassos. Como explicar então que só tenha jogado em grandes equipes? Por que Fluminense, Benfica, Corinthians, Flamengo e Grêmio quiseram Roger?Jogador de outra época, remanescente de um tipo de futebol que faz tempo não se pratica mais, Roger vai tocando sua vida indiferente às polêmicas, discussões e ao tumulto que sua passagem deixa quando parte. Alguma coisa ele tem, algum tipo de sedução ele exerce, e, parece, não só entre as mulheres com as quais costuma desfilar diante dos flashes dos paparazzi de plantão.Alguém me disse, e torço para que seja verdade, que Roger não tem empresário, discute ele mesmo com os dirigentes. Se realmente é assim, nenhum empresário lhe faz falta, pois seus contratos são parte essencial do mistério de seu sucesso. Consegue o supremo milagre de fazer excelentes contratos sem precisar sair muito do Brasil. Fora Portugal, só jogou aqui. E apenas para dar um exemplo do seu talento, que faria de um comerciante genovês do século XV um mero aprendiz, Roger conseguiu do Flamengo, depois de ter saído de maneira vexatória do Corinthians, um contrato que lhe assegurava 43 mil reais por partida. Repito: 43 mil reais, por partida!Depois do Flamengo, ei-lo no Grêmio. Bateu alguns pênaltis, deu alguns lançamentos precisos, desfilou seu charme, conquistou Porto Alegre. Quando tudo parecia andar às mil maravilhas assinou um contrato com o Catar e está de malas prontas para o Oriente Médio. Os gaúchos aparentemente ficaram muito magoados com o abandono, mas não puderam fazer nada. No contrato de Roger havia uma cláusula que o liberava a qualquer momento.Roger, o carioca perfeito, não engana, é sempre ele mesmo. Nunca vende algo que não tem e todos sabem exatamente o que se pode esperar dele. Mas o que tem, sabe vender. O contrato com o Catar ao que parece lhe renderá cerca de US$ 5 milhões, se, naturalmente, cumprido até o fim. O que leva a um preocupante problema: estará a vida noturna da islâmica Doha, aprazível capital de 390.000 habitantes, preparada para o Roger way of life? Saberemos no próximo episódio...

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