A outra face

A outra face

Desde a época em que o Corinthians engatinhava, ainda como clube de bairro, no querido Bom Retiro, se convencionou dizer que a Fiel é maravilhosa, diferente, espetacular, incomparável, surpreendente. Única. Não são poucos os adjetivos esparramados a torto e a direito para definir alma e comportamento especiais dessa torcida. Escolha aqueles que você considerar mais adequados. Exageros à parte, em um século não faltaram provas de amor alvinegras.

, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2010 | 00h00

Mas, como qualquer torcida ? seja do Brasil, da Inglaterra ou da Cochinchina ?, ela cobra, assim como incentiva e idolatra. E como cobra! Não são poucos os momentos em que se pode interpretar ao pé da letra o bordão "Aqui tem um bando de loucos!". Principalmente se na prática os resultados não correspondem a seus sonhos e expectativas. O grande Gilmar dos Santos Neves, Rivellino, Edilson, Tevez, para ficar em um punhado de monstros da bola que passaram pelo Parque São Jorge, viveram na pele em épocas diferentes o que significa ser enquadrado pelos mano ? não o Menezes técnico, mas os anônimos das arquibancadas, que só respiram Corinthians.

Ronaldo agora conhece o outro lado da Fiel. O astro, o craque, o ídolo sentiu anteontem, na derrota para o Paulista, que não há intocável nesse mundo movido a paixão. Depois de um ano e meio de casa, viu o poder de coerção da massa, enquanto pegava seu carro, cercado por segurança reforçada e com cada fuzil! Se ele se imaginava acima dos demais, talvez tenha mudado de ideia. Provavelmente até a noite de quarta-feira jamais houvesse passado por sua cabeça a possibilidade de algum dia enfrentar hostilidade de fãs que se comportam quase sempre como súditos ou discípulos.

Ronaldo foi pressionado, ao sair da Arena Barueri, em cena constrangedora. Jovens e nem tanto, avulsos e de organizadas, exigiram empenho. Teve quem lhe pedisse para "ficar mais magro". Ok, era grupo pequeno de corintianos, mas que, ainda assim, deixou claro que a insatisfação existe e deve ser levada em consideração. A abordagem esteve longe de ser cordial e polida. E por acaso se deve esperar boas maneiras de quem aguarda jogadores, em estacionamento de estádio, à uma da manhã, para cobrar-lhes suor, pontaria ou sei lá o quê? Inúteis, nessa hora, as tentativas de diálogo.

O que fugiu ao padrão foi a reação de Ronaldo. Ninguém precisa ter sangue de barata ? sei bem como é, porque ferve com facilidade o sangue napolitano que corre em minhas veias. E já caí do cavalo muitas vezes por isso. Com o carisma e autoridade que tem, o Fenômeno podia ter driblado os xingamentos com altivez em vez de apontar o dedo médio para a turba para devolver-lhe o descontentamento. Que se fingisse de folha e bola pra frente, pois o episódio certamente se esgotaria ali.

Deus me livre de dar lição de moral pra quem quer que seja! Com o gesto clássico comandado pelo "pai de todos", Ronaldo até se mostrou bem humano e liberou o duende varziano que toda pessoa saudável carrega dentro de si. Desceu do pedestal de semideus e se igualou aos que o reverenciam. Gosto mais de gente comum do que de seres inatingíveis. Mas dava para tirar essa de letra, como nas declarações bacanas e ponderadas que deu ainda no gramado, após o 1 a 0. "Tenho as costas largas e podem cobrar de mim." A torcida cobrou, o Fenômeno baqueou e ontem tratou de pôr panos quentes. Bom.

Noves fora as grosserias de cá e de lá, o Corinthians não está bem ? nem do ponto de vista individual nem coletivo. Não há um jogador, em 19 partidas oficiais até aqui, que manteve sequência de desempenho satisfatórios. Episódios esporádicos garantiram vitórias e empates. É pouco. Cite sem vacilar uma apresentação impecável da equipe, no Estadual ou na Libertadores. Difícil, né? Não significa que a crise chegou ao Parque. Em ambos os torneios, existe perspectiva de classificação e sucesso. Só que está na hora de engrenar, acelerar e deslanchar. Caso contrário, o diálogo torcida-jogadores será só na base de sinais enfezados com as mãos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.