A paciência anda cada vez mais curta

Ronaldo Fenômeno foi hostilizado depois da desclassificação do Corinthians na pré-Libertadores. O time do Santos, sensação do início de temporada, foi vaiado após o empate por 1 a 1 com o Santo André. Vaias que também foram ouvidas quando Rivaldo foi substituído na derrota do São Paulo para o Botafogo de Ribeirão Preto. Para ele ou para o técnico? O fato é que a paciência das pessoas está cada vez menor. Talvez seja uma senha para entender a violência das torcidas, que é um caso particular da violência geral da sociedade. Na sociedade do hiper consumo, ninguém mais tolera frustração. O prazer não pode ser adiado. O desprazer, qualquer que seja ele, não pode ser assimilado. Na cabeça das pessoas não existe intervalo entre o desejo e a satisfação - e, quando existe, a frustração toma conta do indivíduo e ele sai em busca de algum bode expiatório. Pode ser sob a forma simbólica da vaia. Pode tomar o caminho da violência.

Luiz Zanin, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2011 | 00h00

Só assim se pode entender como um ídolo se torna, do dia para a noite, um inimigo do clube e da torcida. Como um time, até então badalado e querido, se transforma em alvo de reprovação por conta de um único resultado. Que esses sinais sirvam de alerta para Ronaldinho Gaúcho, até agora em lua de mel com a torcida do Flamengo. Se o seu desempenho seguir tão irregular quanto foi em seus últimos anos de Europa, a festa terminará muito cedo.

Jogadores, dirigentes, jornalistas - enfim, todo mundo que vive do futebol - deveriam saber que mexemos com a paixão e por isso não podemos cobrar muita racionalidade, em especial da torcida. Nessa atividade, hoje tão pragmática e argentária, a torcida é o único polo que vive relação idealizada com seu clube. Jogadores, agentes, investidores, "parceiros" e tutti quanti são parte da economia do futebol, do negócio, do business, do marketing. Olham seu lucro. E ponto. Dirigentes, não raro, usam o clube como trampolim de prestígio e poder, para não falar de outras coisas. Nesse universo, apenas a torcida é amadora. Somente ela mantém relação ainda romântica com o clube e o esporte.

Esse é um aspecto fundamental, e benigno, porque, se não fosse esse romantismo das arquibancadas, o resto da economia do futebol desmoronaria. Sem paixão, quem iria a estádios, sob sol e chuva? Quem pagaria a TV por assinatura? Quem compraria camisas? Quem se deixaria seduzir pelos produtos que o ídolo anuncia? Quem compraria jornais ou revistas especializadas? Sim, meus irmãos, a paixão, o romantismo, a alienação e mesmo a infantilidade das torcidas é que fazem o negócio girar. Sem ela estariam todos desempregados.

O outro lado da história é que a torcida está cada vez mais exigente, mimada e apressada. Sempre foi assim? É uma questão de grau. Há registros da paixão pelo clube desde que a bola começou a rolar. Depois da profissionalização, muitos atletas foram considerados mercenários. Muito ídolo foi vaiado ou hostilizado. Hoje, sob a pressão da sociedade, tudo ocorre mais rápido. E de maneira mais intensa. É uma patologia contemporânea, que atinge o futebol. O jogo da bola não está isolado do resto da vida.

Quando aprenderemos? Ney Franco disse que o mais importante seria "preparar o psicológico" para o jogo da seleção sub-20 contra a Argentina. Pelo jeito, perdeu o seu latim. Os garotos entraram super nervosos em campo. Só assim se entende a besteira de Juan, expulso logo no início do jogo ao cometer pênalti infantil. Não deve levar a culpa sozinho. Todo mundo estava meio alterado, incluindo Neymar, que tomou um cartão bobo e fica de fora da partida contra o Equador. Quando aprenderemos a não cair na suposta catimba dos argentinos? Talvez nunca. Parece uma tradição, que passa de uma geração a outra.

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