A partida dos 'velhinhos'

Botafogo e São Paulo levaram ao castigado gramado do Engenhão um confronto capaz de explicar as oscilações deste Campeonato Brasileiro. Possuir as capacidades técnicas básicas e saber se comportar taticamente é a receita do óbvio ululante futebolístico, mas existe uma característica decisiva, às vezes pouco valorizada, responsável pela formação do caráter de uma equipe: a personalidade vencedora.

PAULO CALÇADE, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2011 | 03h05

Duas delas estavam lá, frente a frente, disputando o mesmo espaço: Rogério Ceni e Loco Abreu, este com sua braçadeira de capitão da seleção uruguaia, customizada com o escudo do Botafogo, aplicado sobre listras brancas e azuis. Lideranças fundamentais, cada um a seu tempo.

Com dois gols, o uruguaio levou a melhor na primeira etapa. Enquanto houve fôlego e disposição física, foi a segurança de um time que jogou para valer, marcou o São Paulo com dez jogadores atrás da linha da bola e atacou faminto.

Rogério levou dois gols, mas a partida lhe reservava algo de especial, não especificamente na função de goleiro. A fase inicial foi amplamente dominada pelo melhor mandante do Brasileirão, o Botafogo.

Marcelo Matos, Renato, Elkeson e Maicosuel construíram um meio de campo equilibrado em raça, técnica e velocidade, sem contar as participações especiais do argentino Herrera, principalmente quando a missão era recuperar a bola e correr atrás dos volantes.

A batalha individual conduziu o jogo do Botafogo ao sucesso coletivo, tornando visível a preocupação em retomar o posicionamento defensivo e manter a equipe agrupada, organizada, sem os vazios demonstrados pelo São Paulo, que dava a impressão de jogar num campo maior que o do oponente.

Mesmo num gramado eclético, que pode receber competições de motocross e shows de Justin Bieber, o time de Caio Jr. foi capaz de levar a bola ao ataque em altíssima velocidade. Ignorou a marcação do meio-campo são-paulino, tarefa a cargo de Denílson, Wellington e Carlinhos Paraíba, utilizando os lados do campo.

A jogada de Maicosuel, aos 25 minutos do primeiro tempo, mostrou o que tem sido este Botafogo. Chegar à linha de fundo é mérito, mas é preciso saber preencher a área. Loco Abreu fez 1 a 0 enquanto do lado oposto havia um vazio no ataque, além de Marlos e Lucas apostando corrida com os zagueiros. O centroavante uruguaio fez o segundo, de pênalti, num momento difícil de acreditar que Adílson Batista pudesse fazer alguma coisa além de se lamentar.

Mas fez. Primeiro colocou Rivaldo para aproximar o time do ataque e, depois, Henrique na área. Ganhou uma referência no meio de campo e um pouco de agilidade. E assim mudou completamente o jogo, o que parecia impossível após a letargia dos 45 minutos iniciais.

Claro, houve a indispensável e indisfarçável ajuda do Botafogo, prematuramente disposto a defender o placar em troca daquele ritmo frenético e arrasador. Só Caio Jr. deve saber a natureza do problema: se é físico ou psicológico.

Sem a bola, velocidade, e com a marcação frouxa, Loco Abreu desperdiçou o terceiro gol, e o mais simples de fazer, na pequena área. Um sinal para o São Paulo: havia chegado o momento de transformar o controle do embate em números.

Henrique abriu o caminho e Rivaldo fez o segundo, justamente os nomes escolhidos por Adílson Batista para mudar o destino tricolor. O detalhe do resultado, porém, está no cruzamento, na cobrança perfeita para Rivaldo empatar de cabeça: Rogério Ceni. Coube ao goleiro, aos 45 do segundo tempo, a jogada única e precisa.

A partida foi marcada pela lucidez dos veteranos: Loco Abreu, 34, Ceni, 38 e Rivaldo 39. Os "velhinhos" ainda conseguem fazer a diferença neste campeonato.

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