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A política da borracha

Por mais que a Federação Internacional de Automobilismo, pela vontade de seu presidente Jean Todt, tenha feito força para que a Michelin voltasse a ser fornecedora oficial da Fórmula-1, as coisas caminharam para o lado que Bernie Ecclestone desejava, e é provável que até a corrida de Monza, na semana que vem, seja anunciada a renovação do contrato com a Pirelli. Assim Ecclestone põe um ponto final na questão e deixa claro que escolher a marca do pneu não está entre as atribuições que cabem à FIA. As questões comerciais devem ser resolvidas unicamente pela FOM (Formula One Management), enquanto a federação tem o papel de órgão regulador das normas.

REGINALDO LEME, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2013 | 02h10

Apesar de Jean Todt ter sido eleito em 2009 com apoio de Ecclestone, hoje os dois apenas se toleram. Recentemente o francês se aproveitou do fato de ainda não existir um contrato formal de fornecimento de pneu para a temporada de 2014 e sugeriu que a porta poderia se abrir para a volta da Michelin. Mas Ecclestone tratou de fechar a porta de vez. Se ele diz que nunca deixou de existir um contrato é porque a renovação passou a ser apenas mera formalidade.

A Michelin esteve na F-1 de 1977 a 1984 e de 2001 a 2006. Nos últimos seis anos teve a concorrência da Bridgestone, que acabou ficando sozinha de 2007 até 2010. A regra exigiu um fornecedor único e a Michelin caiu fora. Em 2011 a Pirelli substituiu a Bridgestone. Voltar a ter duas marcas é inadmissível neste momento em que a busca é por gastar menos. Quando há concorrência entre duas marcas, uma sempre quer criar produtos melhores que os da outra, o que leva a um investimento sem limite. Outro motivo para se evitar concorrência é que a influência do pneu na performance de um carro é tão grande que seria impossível garantir equilíbrio técnico.

O pneu tem sido o grande assunto da F-1 nos últimos anos. Tudo começou com a ideia de que com pneus de mais rápido desgaste as corridas seriam mais interessantes por conta das variáveis criadas por estratégias diferentes. Bernie apostou nisso, a Pirelli comprou a ideia e as equipes aceitaram. O resultado, em 2011, foi um campeonato com surpreendentes 1.085 pit stops e, consequentemente, um recorde também nas ultrapassagens - 1.150 ao final de 19 corridas. Até então, o recorde tinha sido de 666 em um ano excepcional da F-1, que foi o de 1984. Claro que a novidade exigiu um tempo para que as equipes entendessem bem o comportamento dos pneus. Já no ano seguinte, por conhecer melhor os pneus, as corridas se tornaram mais previsíveis. Como consequência disso, a Pirelli recebeu uma nova incumbência: amolecer mais os pneus para 2013.

Aí é que a coisa se complicou. Como em nenhuma categoria do mundo as equipes obedecem as recomendações do fabricante quanto a limites mínimos de pressão dos pneus e cambagem das rodas, quando a F-1 chegou às pistas mais velozes apareceram os problemas. A imagem do pneu traseiro da Mercedes de Lewis Hamilton se desfazendo no circuito de Silverstone no momento em que ele liderava a corrida foi a gota d'água para a reclamação geral. Só que as análises dos comissários da FIA mostraram que, além do desrespeito das equipes às recomendações, o circuito inglês tinha emendas no concreto das zebras, criando superfícies pontiagudas. Na época, os jornais ingleses publicaram fotos apontando que naquelas zebras Hamilton havia perdido a corrida. Mesmo assim, a Pirelli agiu rápido e substituiu o aço pelo kevlar na construção da cinta que fica por baixo da banda de rodagem. Era exatamente o que ela já tinha tentado fazer duas corridas antes, no Canadá, mas Ferrari, Force India e Lotus vetaram. A segurança falou mais alto e, depois do problema de Hamilton em Silverstone, o veto caiu. A Pirelli ganhou força com Bernie e com as equipes.

Derrota da FIA. Mais ainda, derrota pessoal de Jean Todt. Até então candidato único à reeleição, Todt ganhou um adversário de peso. David Ward, ex-braço direito de Max Mosley e ex-diretor geral da FIA Foundation, anunciou que será candidato da Oposição nas eleições que começam em setembro e terminam em novembro.

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