A ponta do iceberg

Dizem os entendidos que só vemos 10% de um iceberg. Os outros 90% ficam abaixo da linha d?água. Com o futebol é parecido. Vamos ao campo, acompanhamos o noticiário sério, sem deixar de lado as fofocas, ouvimos entrevistas de jogadores, técnicos, roupeiros e cartolas, seguimos as mesas-redondas (com evidente prejuízo da paz conjugal) e, afinal, o que conseguimos saber desse jogo? Muito pouco. Talvez uns 5%, 10% no máximo, como acontece com os icebergs que, numa noite distante, afundaram o Titanic. Depois de esculpir esse nariz de cera, chego ao meu ponto: não é interessante observar como o mesmo elenco, com seus méritos e limitações, passa a jogar de maneira diferente depois de alguma alteração na cúpula, em particular a troca de técnico? Foi o que aconteceu com o Palmeiras, que está indo muito bem sob o comando de Jorginho. A ponto de Edmílson, jogador inteligente e experiente, falar em mudança de estrutura tática para justificar os bons resultados. Será mesmo? Ou foi apenas uma alteração no ambiente que veio a determinar a diferença de atitude que hoje vemos em campo? O fato é que o Palmeiras mudou. Como Luxemburgo não desaprendeu de repente e nem Jorginho tornou-se um Rinus Michels da noite para o dia, podemos atribuir a nova fase palmeirense a um desses imponderáveis do futebol. Mas talvez a palavra "imponderável" não seja a melhor. O termo sugere que é impossível conhecer as razões de mudanças tão repentinas. Não sou irracionalista. Acho que tudo (ou quase tudo) é, no limite, explicável, ou assim pensa a nossa vaidade. Acontece que, no futebol, que é tecido com a mesma matéria de que são feitos os sonhos, as causas são múltiplas e os relacionamentos tão complexos que tudo parece se dar ao acaso, sem lógica aparente. Mas, vamos supor que, por algum motivo, o ambiente não fosse bom e tenha melhorado agora pelos lados do Palestra Itália. Será que essa não seria uma explicação mais plausível para a melhoria em campo do que uma repentina mudança de esquema tático? Pense nisso, leitor. Pense também no Santos que, com os mesmíssimos jogadores, vinha numa boa balada desde as semifinais do Paulistão e aos poucos foi se esfacelando até entrar em parafuso. Será que o problema era só o Mancini? Seria muito simplista. Talvez Mancini fizesse parte de um todo que se foi deteriorando até não mais se sustentar. Um todo formado de continuísmo, disputas na cúpula e no elenco, vaidades mal administradas, etc. Com a chegada de Luxemburgo esse conjunto vai se alterar? É até possível, desde que ele consiga ser um elemento de conciliação entre essas partes contraditórias. O resultado se verá em campo. E será determinado não apenas por possíveis alterações táticas no time, mas por uma composição entre quem atua nos bastidores e acaba influenciando o desempenho dos que entram em campo e decidem (ou entregam) o jogo. Tomei como exemplos Palmeiras e Santos, porque ambos estão ligados pelo mesmo personagem - Vanderlei Luxemburgo, demitido de um e empregado por outro pela quarta vez. Um dos times está em alta; o outro, em declínio. Será interessante observar como se comportam nas próximas rodadas. Se o Palmeiras continuar bem e o Santos mal, ouviremos que Jorginho é revelação e Luxemburgo já era. Em caso contrário, dirão que Jorginho é ótimo mas inexperiente, e que Luxa resolve, o duro é quando sai e deixa a terra arrasada. Sim, mas os técnicos são apenas parte dessa equação impossível. O todo nos escapa, e não devemos nos incomodar com isso. Como dizia o escritor russo Anton Checkov, santo de minha devoção, só os tolos e os charlatães sabem e compreendem tudo.

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