A praga dos porcos

Em 21 de março de 2002, um torcedor do Palmeiras mandou publicar uma foto de Alex, com a descrição do gol que havia marcado na véspera, contra o São Paulo. O outdoor terminava com a frase "Obrigado, Alex!" e foi instalado exatamente em frente ao Centro de Treinamento do Tricolor.

Paulo Vinícius Coelho, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2011 | 00h00

Se o terceiro gol daquela vitória palmeirense por 4 x 2 foi incomum - três chapéus, o último em Rogério Ceni - o jogo também se tornou especial. Há nove anos representa a última vitória do Palmeiras sobre o São Paulo no Morumbi."Isso é praga de são-paulino", reagiu Alex, em conversa por telefone, ao ser lembrado da importância do lance e do longo tabu.

Não é!

O longo jejum de vitórias como visitante contra o rival histórico tem tudo a ver com o que aconteceu com o Palmeiras nos últimos dez anos. É praga de palmeirense.

A sequência dos acontecimentos desta semana evidencia isso. O time viveu uma crise por semana, desde o início do campeonato. Entrou no Brasileirão com o rescaldo da eliminação do Paulistão pelo Corinthians e da goleada por 6 x 0 para o Coritiba.

Quando as coisas pareciam mais calmas, o tsunami Kleber-Flamengo virou manchete. Passada a turbulência e com o ambiente suportando até a seca de vitórias, explode a crise entre o vice-presidente de futebol, Roberto Frizzo e o técnico Luiz Felipe Scolari.

Frizzo garante que não telefonou a Carpegiani e este demonstra indignação com a hipótese de ter acertado as bases salariais para substituir Felipão: "Ele é meu amigo desde 1975", disse Carpegiani.

O ponto alto da crise não foi esse, mas o empréstimo de Pierre ao Atlético-MG, negociação pedida pelo treinador que, no entanto, queria a contrapartida. Ou o centroavante Ricardo Bueno - que agora virá - ou R$ 250 mil para contratar outro jogador.

Frizzo fechou o negócio sem atender nem uma nem outra exigência. Pierre recebeu R$ 100 mil de luvas e só: "O Atlético não pagou mais nada! Eu disse ao Frizzo: como é bom assim, quando os clubes negociam, sem nenhum intermediário", conta o presidente do Atlético-MG, Alexandre Kalil.

O episódio dá noção de que Frizzo e Felipão são dois homens de bem à procura da mesma coisa: o sucesso do clube. E, como todos os homens de bem ou do mal que habitam o Palmeiras, não se entendem - a propósito, conversaram olhos nos olhos na quinta-feira à noite e estão mais perto desse entendimento.

A falta de paz tem tudo a ver com os longos tabus palmeirenses, o de títulos, que dura 12 anos, com o hiato do Paulistão 2008, e o de vitórias como visitante no Morumbi.

Não se trata só de montar times badalados. "No jogo do gol de placa, nosso time não era bom. Tinha o Daniel, improvisado na lateral-esquerda... Fomos para o estádio meio assustados", lembra Alex. "O Vanderlei Luxemburgo montou o time para o Magrão e o Claudecir, porque sabia que o São Paulo me marcaria individualmente. Magrão e Claudecir marcaram os dois primeiros gols", completa.

Aquele time ganhou no Morumbi, mas também não vivia em paz. Oito meses depois, seria rebaixado no Brasileirão.

O time de hoje, em guerra, está em sexto no lugar.

O grande congresso. Muricy Ramalho disse no Bola da Vez, da ESPN, que gostaria de ver mais gente conversando sobre futebol no Brasil.

"O único debate que temos é o que o Parreira promove no fim do ano."

A tendência é que isso mude. Até o final do ano, a CBF deve concluir o trabalho para promover congressos anuais a partir de 2012. Onde estamos e para onde vamos?

Assim como a Espanha decidiu que sua seleção deveria seguir a filosofia tiki-taka e desde 2004 joga à base da posse de bola, o Brasil pode discutir por que não consegue mais criar armadores cerebrais e depende dos craques de potência e velocidade. Por que não chegou às semifinais da duas últimas Copas do Mundo. Em síntese, ter um projeto para o futebol brasileiro, que parece precisar mesmo.

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