A pressa de Ganso

No começo do ano, na primeira entrevista depois de meses de recolhimento e convalescença, Paulo Henrique Ganso mostrou insatisfação com o Santos. O rapaz comedido cedeu lugar a um homem ligeiramente amargurado por não se sentir valorizado. Deu a entender que o clube não cumpria com o que prometera para seu plano de carreira.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2011 | 00h00

Na época, estranhei o tom das declarações e ficou claro que tinha coisa por trás do discurso contundente. Imaginei duas razões óbvias: alguém assoprou no ouvido dele que havia propostas tentadoras para tirá-lo da Vila Belmiro. Ou algum assessor lhe garantiu que arrancaria novo aumento com a chiadeira.

Fora rabo de saia, não tem nada melhor para mexer com a cabeça de um homem do que dinheiro. (Fama e poder também servem.) Se for figura pública, como jogador de futebol, acene com a chance de projeção, insinue que é injustiçado e ele fica indócil como cavalo novo.

Batata! Ganso ciscou pra lá e pra cá, mordeu a isca e caiu como um pato - com o perdão do trocadilho - num jogo de interesses. Apesar de jovem (em março completará 21 anos), já tem alguma experiência no futebol, pelo menos o suficiente para medir valor de sua arte e para saber que a tendência é a de continuar a valorizar-se. Desde que, evidentemente, volte a jogar o fino da bola, como o fazia antes da pausa forçada, a partir de agosto do ano passado, por causa de uma delicada operação de joelho.

O bom senso indica que não era necessária a pressa. Ganso terá muito tempo pela frente para acumular fortuna, seja aqui, seja no Exterior - e até onde sei não recebe ninharia no Santos. A se confirmarem os prognósticos venturosos a seu respeito, não demora para tornar-se uma das colunas de qualquer time que venha a defender - incluída a seleção.

Afobação descabida. E ainda: como ficou tanto tempo parado, o ideal é retomar atividades na miúda, recuperar o ritmo, ganhar títulos, firmar-se como o grande líder do Santos e usufruir dos lucros. Que virão. Ou você duvida?

Se mudarmos o foco, dá para entender a inquietação de Ganso, que amainou, mas não passou de todo. Na quinta, Luís Álvaro de Oliveira, presidente do Santos, soltou a dica que ajuda a matar a charada. De acordo com o dirigente, a empresa associada ao clube nos "direitos federativos" (apelido moderno para o velho passe) do atleta estaria impaciente para negociá-lo. O meia representa money em caixa, mercadoria especial e com forte procura; deve, portanto, circular.

Na lógica do investidor, dinheiro parado perde valor . Assim são vistos jogadores para os novos donos da bola. Não importa que implicações os negócios possam ter. Para eles, são transações, apenas, e basta. Por isso, a ala que detém parte dos tais direitos de Ganso cogitou mandá-lo para o Corinthians, sempre segundo Luís Álvaro. Não passaria de rotineira operação comercial. Simples: ele sairia da Vila e apareceria no Parque.

Será que se leva em conta, antes de mais nada, que há um homem nessa jogada? Epa, podem responder os pragmáticos, Ganso ganharia sua parte, e não seria pouca. Ok. Mas e a imagem como ficaria? E o impacto de ser visto como vira-casaca? Isso é bobagem romântica, tem peso zero? Não há dano algum ao produto? O que pensam os gestores de carreiras?

Os investidores controlam cada vez mais o futebol, pois se aproveitaram do buraco aberto por clubes falidos e mal administrados. Por isso, têm facilidade para fatiar direitos de atletas, fazem parceria com Deus e o diabo, não olham cores das camisas nem rivalidades, ignoram nuanças psicológicas. Entraram nisso não por amor ao esporte, mas para ganhar dinheiro - azar dos fracos e sorte deles, desde que considerem que esse ramo de atividade tem suas peculiaridades, Futebol não é Bolsa de Valores.

E o torcedor? A ele, tadinho, só resta iludir-se com times efêmeros, com ídolos que somem na poeira da noite pro dia. Cabe-lhes um protesto débil aqui e ali, que entra por um ouvido dos magnatas da bola e sai pelo outro. Afrodisíaco hoje, no futebol, é o som da registradora. Tlim, tlim!!!

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