A queda do império

Adriano troca o futebol pela irresponsabilidade feliz na favela

GONÇALO JUNIOR , LEONARDO MAIA, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2012 | 02h04

Chegando lá na cela não cabia mais ninguém. Uma cela que é de 50 cabia mais de 100. Esses são alguns dos versos da música Oh, mãe, não chore, de Fabiano Baptista Ramos, o Mc Tikão. Ela narra sua prisão em 2010, quando o funqueiro foi acusado de apologia ao crime. Ele passou um mês na cadeia, mas diz que não deve mais nada à Justiça. Por versos assim, o cantor recebe entre R$ 3 mil e R$ 10 mil a cada show. É bem mais do que ganhava com o pai em uma confecção, ou quando vendia refrigerantes nos faróis do bairro de Madureira.

Os negritos no currículo de Tikão, no entanto, vão para uma estreita amizade com Adriano, de visitar a casa e tudo. De dar conselhos, principalmente. E os dois acham que uma amizade não precisa de atestado de antecedentes criminais. "A gente conhece todo mundo na comunidade desde pequeno. A amizade continua mesmo que cada um tenha seguido seu caminho, torto ou não", diz Tikão.

Foi o cantor quem estendeu a mão para o Imperador subir ao palco do Barra Show, no final de outubro. Ali, o atacante fez um tipo de manifesto, um desabafo que, como ele próprio previu, foi parar na internet. "Uma coisa que ninguém vai tirar é que eu sou da favela! Sou nascido e criado na Vila Cruzeiro!", berrou.

O segurança Marcos Figueiredo, amigo do jogador há 15 anos e que também frequenta a sua casa, assina embaixo a decisão de Adriano de deixar o Flamengo e marcar a volta para 2013 - se é que ele vai mesmo voltar. "Assim, a mídia sai do pé dele. O time não vai disputar nada nessa época."

Um funcionário do Corinthians, que não quis se identificar, pensa diferente: "Ele precisava ser internado, ficar um tempo limpo, sem álcool, para se reerguer novamente." Foi pelo Corinthians que Adriano fez sua última partida oficial, na data já amarelada de 4 de março deste ano, contra o Santos, pelo Paulista. Os colegas se lembram dele como um meninão mimado, sempre reincidente. Fez corpo mole antes de uma partida contra o Ceará, pelo Brasileiro de 2011, e irritou a comissão técnica ao se negar a subir na balança perto dos companheiros - fato que precipitou sua saída. "Ele parece uma criança que quebrou a vidraça e jura que não vai fazer de novo. No dia seguinte, está lá a vidraça quebrada", falou o funcionário.

Enfurnado. A vidraça quebrada de Adriano é a Vila Cruzeiro, uma das favelas do Complexo da Penha, que divide a Serra da Misericórdia com o Complexo do Alemão. Em 2009, o jogador alegou depressão, ficou três dias lá e deixou de mãos abanando a Inter de Milão. Ele é capaz de passar os dias enfurnado na Vila Cruzeiro para baixo e para cima, irresponsavelmente feliz.

"Talvez ele se sinta acolhido em seu bairro. Talvez não tenha de seguir regras e compromissos. Ele só vive sua vida, sem dar satisfações. Para muitos, independentemente do nível social, é difícil lidar com a fama e o dinheiro. Lá na Vila Cruzeiro ele é o Adriano, e não o Imperador", disse, colocando uma pulga atrás da orelha, o psicólogo do esporte Rodrigo Scialfa Falcão.

Essa história faz lembrar o poema em que Fernando Pessoa exalta o rio da sua aldeia por ser o rio da sua aldeia. Mas nem rio tem na Vila Cruzeiro. Foi por investigar os bailes funk do lugar que o jornalista Tim Lopes, da Rede Globo, foi assassinado em 2002. Desde novembro de 2011, a Unidade da Polícia Pacificadora (UPP) atua lá com 300 militares.

O Hospital Getúlio Vargas comemora a queda nos índices de vítimas de perfuração por arma de fogo - o número caiu 37% entre 2010 e 2011 -, mas os movimentos comunitários denunciam a morte de Abrahão da Silva, que, sem armas e sem drogas, teria sido executado pelas UPPs. Ele tinha 14 anos. Depois da pacificação, os bandidos não são vistos armados durante o dia. A venda de drogas continua, mas como um trabalho de formiguinha, sob o tapete.

Enquanto os amigos falam pelos cotovelos, os familiares se calam sobre Adriano. A avó, Wanda, foge dos jornalistas como o diabo da cruz. "Eu não posso falar nada, meu filho", e tum com o telefone no gancho. Rosilda, a mãe, também é dura na queda. "Não vou dar entrevista. Fique com Deus."

Zinho, diretor de futebol do Flamengo, já havia percebido a opção do jogador. "Os melhores amigos são os que estão na balada. Eles não são atletas. São as más companhias."

Euros. Adriano não vive de brisa. Ele se acomoda em um espesso e aconchegante pé de meia cerzido na Europa. O atacante ganha em euros desde que trocou o Flamengo pelo Parma. Tinha 19 anos. Em sua fase áurea na Inter, entre 2005 e 2007, o próprio jogador admitiu que recebeu cerca de 7 milhões por ano (mais de R$ 18 milhões). Na Roma, em 2010, pôs no bolso mais de R$ 5 milhões em nove meses.

O problema é que a meia está desfiando. Seu último holerite no Flamengo registrou R$ 50 mil - valor que nem recebeu (no contrato, havia uma cláusula que dava ao clube o direito de demiti-lo por justa causa em caso de três advertências).

A vida de Adriano é um filme em que todos são mocinhos e bandidos e o epílogo está aberto. Ah, faltou citar a morte do pai, Almir, em 2004. "Ele não conseguiu lidar bem com isso", comentou o técnico Andrade.

Não dá mesmo para prever o fim desse filme. Adriano não está mais com a bola. / COLABOROU VÍTOR MARQUES

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