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Vai começar brevemente um novo Campeonato Paulista. Promete ser bom, com clubes se reforçando, e talvez alguma boa surpresa do interior. Surpresa é a palavra, pois como regra o interior não vai bem. Principalmente, acredito, porque os clubes não conseguem mais empolgar a torcida da própria cidade.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2015 | 02h01

Hoje, no interior, a torcida é para os grandes da capital. É comum as torcidas locais estarem em minoria dentro de seu próprio estádio. Não se ouve mais falar de equipes tradicionais a não ser por breves momentos e, à exceção da Ponte Preta, nenhum clube consegue fixar uma imagem importante.

É claro que isso se deve em parte considerável à imprensa, que é muitíssimo mais forte na capital. No caso da imprensa, como no futebol, os inúmeros jornais locais cedem cada vez mais lugar às poderosas publicações da capital.

E isso me leva a um clube que marcou sua trajetória pelo futebol permanecendo, apesar da decadência atual, uma equipe ainda viva, lembrada e reconhecida pelos torcedores. Tem mais vida, afundado em alguma série obscura do Campeonato Paulista, do que muito time que vai disputar a Série A. Porque é uma equipe da capital. Falo do Juventus, do glorioso bairro da Mooca.

É incrível como esse clube, presente no imaginário de qualquer torcedor de futebol de São Paulo, ainda não interessou investidores, empresários, marqueteiros e demais elementos que vêm o futebol como negócio. É um time de enorme apelo, a começar pelo lendário bairro que o abriga. Sem desmerecer o interior de São Paulo, exceto Santos, nenhum lugar tem história e tradição maior do que o bairro da Mooca. Bairro das grandes lutas operárias do começo do século XX, das batalhas e dos bombardeios aéreos de 1924, de festas religiosas das mais significativas da cidade, passando pelos restaurantes e pelas pizzarias, a Mooca ainda tem o melhor e mais bem conservado estádio, testemunha dos tempos em que o Campeonato Paulista era jogado quase que só inteiramente pelas equipes da capital.

O pequeno, quase intocado, mitológico estádio da Rua Javari, já está tombado, se não pelos poderes públicos, pelo menos na mente e no coração de todos que vivem o futebol. A mística do time modesto que enfrentava os grandes de igual para igual, que simbolizava no universo da bola a luta dos pequenos contra os grandes, dos pobres contra os poderosos, se fixou com o decorrer dos anos e não mais se apagou. Nem sei exatamente em que situação está o Juventus nas diversas séries de campeonatos que há em São Paulo. Sei que devia estar na Série A. Sei que sua marca, conhecida em todo o Brasil, poderia e deveria ser aproveitada por empreendedores realmente do ramo. Sei também que a Mooca é inteiramente solidária com seu time. Vejo frequentemente jovens vestindo camisas do Juventus e, nas costas, uma alusão à Mooca. É como se o bairro fosse o time, e o time fosse o bairro. Mas ele vai além dessa fronteira: é o segundo time de todos os torcedores. Nunca conheci alguém que não gostasse do Juventus.

Acho impressionante que um clube que acumula essa simpatia ainda sem dono, com tanta força no afeto popular, parte importante de um bairro que é uma referência da cidade, não atraia toda espécie de empreendedores e agências de negócios. Produtos deveriam estar disputando a tapa o privilégio de ver suas marcas aliadas a esse clube. Até como guardião das tradições de uma cidade tão empobrecida em seus bens históricos o Juventus é importantíssimo. Não sabemos muita coisa no Brasil, não costumamos trabalhar com estatísticas sérias, sempre "achamos" alguma coisa.

Por isso se alguém tiver a boa ideia de fazer uma pesquisa de mercado séria para averiguar as vantagens que poderiam vir de uma aliança com o Juventus, tenho certeza de que os dados serão surpreendentes.

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