A raça que o inglês não tem

ALEX BELLOS

Alex Bellos, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2014 | 02h02

Na semana passada escrevi sobre palavras inglesas que não têm tradução direta em português. Agora vou abordar o inverso. Muitas palavras portuguesas não têm equivalente em inglês e isso diz muito sobre as diferentes maneiras que ingleses e brasileiros encaram o futebol.

Nós ingleses, por exemplo, não temos uma palavra para "craque", apesar de ela ter origem no termo inglês crack. A melhor tradução é great player, grande jogador, mas ela não capta a transcendência de um craque. Você pode alegar que o inglês não necessita da palavra "craque" porque não produzimos muitos, ao passo que o Brasil produz inúmeros. Mas é errado. Porque historicamente o Brasil valoriza o indivíduo e a Inglaterra valoriza a equipe.

Outra palavra impossível de traduzir é "raça". No início da semana, fiquei tentando explicar seu significado a um colega britânico. O inglês tem muitas palavras que são elementos constitutivos de "raça" - como grit, courage, bravery e heart. Mas nenhuma com sua profundidade visceral. Mais uma vez você pode argumentar que não precisamos da palavra porque nossos jogadores não têm "raça". E observando o desempenho da equipe inglesa nesta Copa você tem razão. Mas eu diria que essa fixação com o termo é porque os brasileiros são indivíduos mais abertamente emotivos e entusiasmados do que os ingleses.

As palavras "craque" e "raça"enriquecem o vocabulário do futebol global. Mas há termos intraduzíveis que, na minha opinião, não prestam bom serviço aos torcedores brasileiros. Como "freguês". Quando ouvi a palavra pela primeira vez achei-a hilária, uma brilhante expressão de desdém para com times inferiores. A tradução inglesa seria customer, que não tem nenhuma conotação. Mas quando ouvi agora não achei divertido. E tenho escutado muitas vezes esta semana. Especialmente se fala no jogo de amanhã. O Chile não vai derrotar o Brasil porque em Copas os chilenos são fregueses.

A persistência e a popularidade do termo "freguês" reflete o caráter supersticioso dos brasileiros. Todos os torcedores são supersticiosos em se tratando de futebol, mas nenhum é mais do que os brasileiros. Na palavra se insere a crença de que, como o Brasil sempre derrotou o Chile no passado, vai derrotá-lo no futuro. Outra palavra usada para dizer a mesma coisa é "escrita", também sem tradução em inglês. Acreditar na "escrita" que o Brasil sempre vence o Chile nas Copas é ser irresponsável, especialmente nesta Copa de azarões.

Pode haver um outro sentido no uso de "freguês" em competição de clubes, quando as equipes jogam uma contra a outra muitas vezes, nos mesmos estádios e com mais ou menos os mesmos jogadores. Mas quando se trata de times diferentes, jogos com anos de distância, diferentes contextos e expectativas, a palavra "freguês" confere uma certa arrogância perigosa. Uma frase mais útil é "futebol é momento".

Em inglês temos uma frase similar: Meu caro Brasil, pense no presente, não seja tão obcecado com o passado.

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