A razão profunda dos 7 a 1

O que intuitivamente já sabíamos agora vem provado em números oficiais da Fifa, como demonstra a ótima reportagem de Jamil Chade publicada domingo neste jornal. O Brasil nunca vendeu tantos jogadores para o exterior e nunca, em média, recebeu tão pouco por essa exportação em massa.

Luiz Zanin, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2015 | 02h03

A concentração de capital nos 20 grandes clubes europeus nunca foi tão grande. São esses gigantes que ditam os rumos do futebol mundial. Compram jogadores a preço de banana e os revendem com alto lucro. O Brasil reafirma-se em sua posição conformista de fornecedor de matéria-prima (pé de obra, no caso). Vendemos barato o artista e eles nos vendem caro o espetáculo, para alegria da imprensa alienada, tolamente ufanista em relação aos patrícios que atuam no "Primeiro Mundo".

Essa é a principal causa do declínio técnico do futebol brasileiro, mas, enquanto não for reconhecida e atacada como tal, continuaremos a procurar Deus atrás da igreja, como diziam os antigos. Ou seja, a nos debater indefinidamente sobre motivos secundários, ignorando a incômoda razão principal. Essa brutal disparidade econômica é a razão de fundo da decadência do nosso futebol no plano interno, da descaracterização do selecionado nacional e dos 7 a 1, que ficam como marco simbólico da distância econômica que nos separa da Europa.

Os número dizem tudo. Na temporada passada, o Brasil exportou 689 jogadores e recebeu 221 milhões de dólares no total. A Espanha negociou quase 100 jogadores a menos do que o Brasil exportou e somou 667 milhões de dólares em caixa.

Um ou outro exemplo individual ajuda a entender a disparidade de contas. O Fluminense recebeu do Milan 10 milhões pelo zagueiro Thiago Silva, que depois foi vendido ao francês PSG por 41 milhões. Hulk chegou ao Porto por 5,5 milhões e foi revendido ao Zenith, da Rússia, por 60 milhões.

Outro número: a receita total dos 20 clubes de ponta da Europa é de 6 bilhões. Cem federações nacionais vivem com receita de apenas 2 milhões ao ano. A disparidade econômica é um abismo.

O Brasil não está só em sua miséria. A América do Sul, como um todo, sofre do mesmo trauma, em especial as potências futebolísticas do continente, Argentina e Uruguai, campeões mundiais e outrora orgulhosos da potência interna do seu futebol. Hoje, esses países, junto com o Brasil, são meros exportadores de matéria-prima e tornaram-se coadjuvantes na cena internacional do futebol.

Para que não banquemos os ingênuos, precisamos evitar a posição de coitadinhos explorados pelos malvados europeus. Eles só o fazem porque contam com o nosso beneplácito e conivência. Os clubes, de pires na mão, têm todo o interesse em vender seus talentos, o mais rápido possível. Por exemplo, o bicampeão Cruzeiro, um dos poucos times nacionais dos últimos dois anos a apresentar futebol digno de ser visto, desmanchou-se vendendo seus melhores jogadores não para a Europa, mas para a China e o "mundo árabe". Mercados secundários, porém com dinheiro em caixa.

Além do mais, para reger as relações entre atletas e clubes, contamos com uma legislação de tipo exportadora e extrativista, que obriga os clubes a negociar seus jogadores rapidamente, sob pena de não receberem nada por eles no final do contrato. Essa lei foi escrita pensando no negócio futebol, não na qualidade do futebol brasileiro. À sombra dessa legislação proliferam agentes, "empresários", fundos de investimento, etc. Uma rede parasitária ávida por lucrar, o mais rápido possível, com a transferência de atletas.

Todos estão atrás de dinheiro, e quem deveria zelar pela qualidade do futebol praticado no País é quem menos o faz, a malfadada e omissa CBF. Como sempre acontece, há safras melhores e piores a cada ano, mas o Brasil, por praticar de maneira intensa e apaixonada o futebol, ainda é, como se dizia, um celeiro de craques. Mas o ecossistema que permitia a esses talentos fazer o melhor futebol do mundo foi destruído. Para sempre? Nosso dever é dar essa resposta, porque ninguém o fará por nós.

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