A reflexão para hoje

Apesar dos inconvenientes causados para quem já estava mais do que habituado a antigas regras, não caberia a este modesto escriba a tarefa de criticar a nova ortografia da língua portuguesa ou a lógica que a construiu. Sábios linguistas (agora, solenemente sem trema) de diferentes nações lusófonas se debruçaram exaustivamente sobre o assunto, ao longo de anos, para chegar ao brilhante desfecho. Tudo bem. Mas, sendo assim, algum desses baluartes bem que poderia explicar para mim a manchete que li num portal, ontem pela manhã: "Um goleiro para o Timão". Como o acento que diferenciava para de pára foi tosquiado pela reforma, a dúvida se instalou. O Corinthians tinha contratado um goleiro ou um goleiro havia parado o ataque do Corinthians?Felizmente - ainda que em regras ortográficas mais lógicas esse tipo de dúvida não deveria exigir pesquisa -, ao ler a matéria eu finalmente entendi que a opção correta era a segunda. Ou seja: o bravo goleiro Renê do Barueri parou o ataque do Timão na estreia (mais um acento que se foi) do Campeonato Paulista. O mais curioso é que o autor da espetacular defesa que impediu a virada do time da capital é corintiano de carteirinha, ex-integrante da torcida Gaviões da Fiel. E será assim, com histórias pitorescas e um ou outro tropeço dos grandes clubes, que avançarão os campeonatos estaduais de São Paulo e do Rio de Janeiro. No final, chances mais do que remotas de vermos um campeão que não seja um dos quatro grandes de São Paulo. E quase nenhuma chance de um campeão que não seja um dos quatro grandes do Rio. O último caso assim data de 1966, quando o Bangu deu a volta olímpica.Os grandes campeonatos têm estilos bem próprios. O Campeonato Carioca tem o seu. Não me recordo de um Cariocão que tenha sido disputado em ritmo vertiginoso, com jogadas em grande velocidade. As partidas dos campeonatos do Rio são, tradicionalmente, mais arrastadas. A bola é trabalhada, muito trabalhada, vai e volta, rodando de um lado para o outro. É como se estivéssemos vendo times dos anos 70. Em que outro campeonato do mundo um jogador poderia parar a bola incontáveis vezes junto à lateral e esperar pacientemente pelo bote dos adversários, antes de aplicar-lhes dribles de Garrincha? O Campeonato Carioca tem alma - e sua alma é a de uma quente e nostálgica tarde de domingo, em pleno verão. Que o torneio não mude nunca, pois assim construiu sua mística.O Campeonato Paulista também tem estilo particular. Nele, clubes do interior são sempre temíveis. Não é incomum vermos times de fora da grande São Paulo liderando a classificação, sendo que alguns deles chegaram até a levantar a taça. Nos clássicos paulistas, predomina a imprevisibilidade. Muitas vezes - mais do que seria razoável - um rival em pior fase atropela o favoritismo do outro. Isso sem falar nos campeões, que muitas vezes não são os clubes de melhor elenco ou aqueles que farão, depois, a melhor campanha no Campeonato Brasileiro. Basta lembrar que o São Paulo não consegue repetir, em suas terras, a hegemonia que construiu em âmbito nacional.E assim, da mesma maneira que apóio e apoio agora se escrevem do mesmo jeito, o ilustre e ilustrado leitor pode interpretar o título desta coluna de duas maneiras: como uma reflexão para o dia de hoje ou como, dado o caráter irreversível da reforma ortográfica, a constatação de que é melhor interrompermos já toda e qualquer reflexão sobre ela. Para não deixar minhoca na cabeça de ninguém, vai aqui uma nota do autor: escrevi pensando na segunda alternativa.

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