A revolução de Blatter e Platini

MADRI

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2011 | 00h00

A notícia vazou em janeiro e foi tratada como um delírio. Ninguém deu a menor importância quando se anunciou o desejo de derrubar um dos pilares mais sólidos do futebol europeu, o calendário. Só podia ser coisa de alguém com a cabeça congelada pelo rigor do inverno. Mas a questão é séria, é real. O francês Michel Platini e o suíço Joseph Blatter, uma poderosa e afinada dupla de cartolas, trabalham nos bastidores pela mudança.

Quem acompanha este espaço talvez lamente a retomada do assunto, a tal adequação do calendário brasileiro ao europeu. Esqueça essa história, se o projeto prosperar, isso jamais acontecerá, pois agora se trata justamente do inverso: o objetivo é substituir a temporada europeia, de agosto a maio, pela adotada em nosso País, de fevereiro a novembro. Uma revolução difícil de acreditar.

Não, ainda não somos um modelo a ser seguido. A rotação do eixo do futebol não tem nada a ver com o Brasil, mas nos beneficiaria direta e indiretamente. Afinal, o sistema na Europa ainda está alicerçado numa temporada com jogos no inverno - o que torna o esporte inviável em muitas ligas - e férias no verão. Será impossível agradar a todos. Os alemães, provavelmente, topariam; italianos e espanhóis se oporiam, preocupados com o calor.

O clima é apenas um dos motivos alegados por quem trabalha pela mudança. Neste giro pela Espanha, na rota dos clássicos entre Barcelona e Real Madrid, a informação foi confirmada por um membro graduado da Uefa: o projeto não é um delírio, está em curso, cuidadosamente dirigido por Platini, nos escritórios da Uefa, e por Blatter, na sede da Fifa.

É preciso entender, no entanto, o que se passa no centro do poder. Reeleito recentemente, Platini já trabalha para suceder Blatter, em 2015. Pretende mudar de posto com o novo calendário funcionando.

Os dois são parceiros nessa demanda, desde que o suíço vença seu opositor no dia 1.º de junho. Mohamed Bin Hammam, do Catar, presidente da Confederação Asiática, chega à disputa pelo trono já exibindo uma vitória: levou o Mundial de 2022 para o seu país. Como todos sabem, zebras acontecem. E há gente graúda apostando nisso. Até o fim da disputa eleitoral, o assunto está congelado, pelo menos externamente.

Sem Blatter na parada, Platini teria de negociar com Hammam, talvez simpático à causa, pois para amenizar o calor se cogita a Copa de 2022 no primeiro trimestre, exatamente para onde o novo ordenamento do calendário pretende remeter todas as competições entre seleções, como a Copa América e a Eurocopa. A derradeira instância para a aprovação do pacote é o Conselho Executivo da Fifa, composto por 24 membros, lugar no qual as conveniências falam mais alto que as convicções.

O craque francês, hoje dirigente, deseja valorizar as competições entre seleções. Fica irritado quando ouve um jogador dizer preferir o título da Champions ao do Mundial. Sua intenção é abrir o ano futebolístico com os torneios entre as equipes nacionais, e não terminar com elas, como acontece atualmente.

Depois de unificar a agenda do maior esporte do planeta, a segunda missão, e a mais complicada, é fazê-la valer no mundo todo. E levar federações e confederações a respeitar o novo ordenamento.

Até aqui, na Europa, ainda falta sintonia entre esses organismos. Por isso, Platini está atento, possui um departamento para mapear como cada uma das 53 associações utiliza as datas disponíveis e, principalmente, as indisponíveis.

Não é fácil chegar à Fifa pilotando essa plataforma eleitoral, mas certamente seria divertido ver Platini por lá. Para nós, brasileiros, seria a suprema ironia.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.