A sinceridade de Jesus

Vivemos tempos bicudos, em que é o enorme o desafio de distinguir entre verdade e embromação, entre bons propósitos e oportunismo. No futebol, está um horror o festival de lugares-comuns, declarações ocas e sonsas. Por isso, merece simpatia a postura sincera de Gabriel Jesus. A jovem promessa do Palmeiras jogou alguns minutos, na partida de ontem contra o XV de Piracicaba, teve uma chance, dentro da área, e chutou fraco para o goleiro defender. Até aí, tudo normal.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

16 Março 2015 | 02h05

Bonita foi a explicação que deu para o repórter do SporTV, antes de ir para o vestiário. "Estou ansioso para marcar o primeiro gol no time principal. Estou mesmo. Naquele lance, se fosse no 20 (a categoria Sub-20), eu tentava o drible e ia pra cima."

Cara e sinceridade de adolescente (completa 18 anos em abril), atitude de quem se emociona por atuar com companheiros experientes, espírito de amador que só encarna nos grandes profissionais. Gabriel expôs o que pensa e sente, sem medir consequências e sem fazer média. Não imaginou que alguém possa usar essas frases como prova de imaturidade e ansiedade.

O rapaz não tem a malícia dos gatos escaldados, dos que escondem desejos e se podam em função da recomendação de assessores e empresários. Não se contaminou, ainda, com o vazio do mundo em que está apenas no saguão de entrada. Uma hora vai perder a espontaneidade, a não ser que seja um Marcos. E sabemos que, personagens como o ex-goleiro do Palmeiras, são cada vez mais raros nesse meio, no qual tudo é estudado e programado.

Gabriel Jesus tem talento e, pelo visto, também personalidade. Peculiaridades que ficaram claras ao frisar que, se estivesse numa partida entre os moços da idade dele, seria atrevido a ponto de driblar em espaço curto. Ficou em dúvida se poderia fazer isso entre "as feras". Deveria, e precisa contar com incentivo de colegas e de Oswaldo de Oliveira. Se tiver sensibilidade, o treinador vai encorajá-lo a crescer diante do marcador, a procurar o lance diferente e criativo, sem medo de falhar. Com 17 anos todos têm direito de errar um monte de vezes. Só assim pra saber se surge um adulto confiante, um craque ou se não passa de traque.

Gabriel deu uma palhinha do repertório ao entrar aos 10 minutos do segundo tempo, em substituição a Allione, e em poucos minutos ensaiar arrancadas e sofrer a falta de que resultou na expulsão de Tony. O caminho é esse.

A propósito de explosão: insosso o desempenho do Palmeiras em outra apresentação em casa e com público superior a 26 mil pagantes. Penou para fazer 1 a 0 num adversário tímido e que teve como mérito se retrancar. O gol decisivo veio dos pés de outro Gabriel, o do meio-campo, aos 39 da etapa final.

Falta a centelha criativa ao time de Oswaldo. Não há o regente da orquestra. E, pelo que se viu até agora, não é Allione (mesmo com atuações satisfatórias em outros jogos), tampouco Robinho ou até Zé Roberto, bravo pela perseverança. Talvez seja Cleiton Xavier, quando puder jogar. Ou... Valdivia, no dia em que voltar.

Começa a aproximar-se o período em que Oswaldo deve mostrar com clareza a cara do Palmeiras. O encantamento existe, mas mal sabe ele como é volátil o humor palestrino. Já havia ontem cornetas a soar.

Tricolor aos trancos. O São Paulo teve de suar um bocado pra bater a Ponte Preta de virada, por 2 a 1, no meio da tarde, em Campinas. Primeiro tempo fraco e segundo ao menos com empenho. Ah, mas era o time reserva! Sim, de titulares fixos só Rogério Ceni e Edson Silva. Conceda-se o desconto, portanto. Noves fora os nove reservas, espera-se sempre mais de um time que tem de ganhar a confiança do torcedor.

Abuso alvinegro. O Santos continua exagerado e fez 4 a 1 no lanterna Marília, na noite de sábado. Os santistas têm a maior pontuação do torneio e se aprimoram, à sombra dos demais, sem badalação. Torço para que não seja só sonho de verão.

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