A soma das partes

Quando um clube como o Palmeiras afunda no vazio de ideias, levando com ele sua história e seus valores, por mais dolorosa que possa ser a situação, talvez o melhor a fazer seja inventariar as falhas e aproveitar a oportunidade (mais uma) para moldar, na lama da crise, a solidez duradoura, o sonho de todos os palmeirenses. O primeiro passo é admitir os erros, entender a raiz do conflito que colocou a instituição em colapso. O resultado do campo nem sempre corresponde ao que nele acontece.

PAULO CALÇADE, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2012 | 02h06

É apenas a parte visível, identificável, o retrato falado do esfacelamento produzido nos gabinetes, numa espiral desprovida de conteúdo e de sentido.

Com os dirigentes e jogadores atemorizados, chega a ser simplório despejar tamanha responsabilidade no gestor do campo. Gilson Kleina, o treinador, aceitou substituir Felipão porque o desafio é da natureza humana, é assim que funciona. Mas não tem culpa, testou todas as possibilidades, só faltou escalar Barcos no gol.

A saída, porém, não passa por um encaixe tático espetacular, capaz de salvar o navio do naufrágio. Não no caso do Palmeiras. Pode ser solução para outros times, não para este.

Quando ainda faltavam 17 rodadas para o término do campeonato, quase três meses atrás, esta coluna classificou a situação como dramática. Pois era o que sugeria o comportamento do time, já com os pés na lama, afundado na mesma zona do rebaixamento.

Uma equipe de futebol necessita de sustentação emocional e moral, individual e coletiva. Do jeito que está, é impossível estabelecer como uma afeta a outra. Para que o jogo do campo produza resultado, é preciso perceber a dimensão e os contornos do enigma psicológico que se tornou cada partida.

Há décadas o filósofo português Manuel Sérgio alerta para esse outro lado do esporte. Criador da Ciência da Motricidade Humana, introjetou um pouco de filosofia nos desgastados pilares do futebol. Foi professor de José Mourinho, que definiu assim a importância do pensamento de seu mestre:

"Influenciado por Manuel Sérgio, percebi que teria de aprender e saber coisas que os outros não sabiam. Ele não me ensinou futebol (...) até porque não é um homem do futebol, embora, sublinhe-se, ensine os homens do futebol. O que ele me ensinou é que o futebol não se esgota no futebol que é praticado nas quatro linhas. O futebol é muito mais que isso. É físico, é tático e é técnico, mas, essencialmente, é o todo que não se resume à soma das partes, é o humano que nunca estará completamente inventado e terá sempre, todos os dias, de ser reinventado. E quando dizem que sou um treinador singular não me esqueço nunca que tive um professor que já me falava do conhecimento como emancipação da libertação."

É disso que o Palmeiras mais precisa agora: emancipar-se e libertar-se para seguir sua história em outra direção. Por enquanto, na soma das partes...

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