A tarefa de Mano Menezes

São duas décadas de atraso, perdidas pela falta de planejamento, da base à seleção principal. Mano Menezes terá muito trabalho, precisará montar uma estrutura que possa ajudá-lo a renovar a equipe, independentemente das ferramentas disponíveis na Confederação Brasileira de Futebol.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2010 | 00h00

É um erro acreditar que a renovação vai acontecer sozinha, naturalmente, apenas pela riqueza do futebol brasileiro. A solução talvez esteja nas pepitas menores, mas essas a CBF não enxerga. Mano é um treinador de verdade, apesar de a seleção ter chegado muito cedo. A responsabilidade é delicada. Tão importante quanto renovar é saber escolher um estilo para a seleção.

Sem ser brilhante, sem possuir um atacante para receber todo o volume de jogo produzido pelo meio-campo, a Espanha foi uma campeã legítima, buscou insistentemente promover o seu jogo, dona da bola e do passe.

O mais importante no time de Vicente Del Bosque foi a coragem, foi não ter aberto mão disso, foi ter construído sua identidade sobre o futebol de Xavi e Iniesta. Na seleção, os espanhóis alcançaram a ideologia e o estilo perseguidos por Barcelona e Real Madrid. Para os dois gigantes do futebol campeão do mundo, ganhar é tão importante quanto jogar bonito.

Muitos treinadores do futebol brasileiro se atrapalham na questão do estilo. Com a fragmentação da temporada, a luta pela manutenção do cargo criou uma ideia dominante. Basta observar o que está acontecendo no reinício do Campeonato Brasileiro. É o chamado futebol competitivo. Muricy, que disse não à CBF, recentemente afirmou que quem quisesse espetáculo deveria ir ao teatro.

Esse é um caminho perigoso, pode até se sustentar nos clubes, mas não serve para a seleção brasileira. Não fosse o catastrófico segundo tempo contra a Holanda, não seria loucura imaginar Dunga campeão do mundo. O time passaria pelo Uruguai e, na final, a Espanha teria um adversário bem mais perigoso.

Moral da história? Se com uma equipe limitada era possível vencer a Copa, você já imaginou onde poderia chegar a seleção reerguida sobre o talento? É a tarefa de Mano.

Aula de má gestão. A contratação do novo treinador para a seleção brasileira foi uma aula de má gestão. Sem retoques, foi a cruel exposição de uma empresa que vem mostrando maus resultados dentro de campo nos últimos anos.

Toda a incompetência da CBF, carimbada diariamente na condução do futebol doméstico, transborda no comando do time nacional. As Copas da Alemanha e da África do Sul deixaram bem claro um chefe sempre distante dos problemas, pronto para apontar os erros dos outros, jamais os seus.

O problema é que a lojinha não fecha, há sempre um jogo no caminho. O fiasco da era Dunga ainda não foi totalmente digerido e a seleção já volta a campo para enfrentar os Estados Unidos. É preciso faturar.

Como havia uma convocação prevista para hoje, a CBF resolveu se mexer na quinta-feira à noite, quando Muricy Ramalho foi convidado para um café da manhã no dia seguinte. Na cabeça de Ricardo Teixeira, há 21 anos na presidência da Confederação Brasileira de Futebol, convite feito, convite aceito.

Quem poderia dizer não à seleção? Muricy Ramalho não sentiu firmeza. A conduta do cartola, porém, é reveladora, mostra a importância do futebol para a entidade que dirige o futebol. E pensar que o Mundial de 2014, a seleção brasileira e os dois dos principais campeonatos do País, a Copa do Brasil e o Brasileiro, estão nas mesmas mãos. Fica difícil acreditar no sucesso daqui a quatro anos.

E os patrocinadores ainda fazem fila na porta da CBF. Devem enxergar algo que ninguém vê!

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.