A torcida no poder não deu certo

Ronaldo voltou ao time, marcou dois gols, anulados pela arbitragem, e a crise continua. No momento em que a concorrência se movimenta para decidir o Brasileiro 2010, o Corinthians continua empacado, à procura de uma saída, de um recomeço. Com apenas três empates nas últimas sete partidas, é difícil acreditar em mudança tão radical nos próximos oito confrontos, em algo que ainda possa colocá-lo numa disputa verdadeira e não virtual pelo título.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2010 | 00h00

Tite, o novo treinador, vai encontrar um grupo cansado, sem confiança e desconfiado da cartolagem, avalista dos piores métodos motivacionais que se tem notícia. Fábio Carille, o interino, melhorou a defesa com a mudança de sistema de jogo. Armou a equipe no 3-5-2, com Chicão, William e Leandro Castán à frente do goleiro Júlio César, oferecendo liberdade e segurança aos laterais Moacir e Roberto Carlos.

No meio de campo, Ralf voltou e deu força à marcação, tendo Paulinho e Elias ao seu lado. No ataque, havia Ronaldo, mais pesado do que o recomendado para um atleta, porém mais inteligente do que a maioria do futebol brasileiro. Defederico, dizem, também esteve por lá. Fazer o argentino jogar futebol será fundamental para o trabalho de Tite, se é que isso é possível. As contusões dizimaram o elenco corintiano.

Sem a bola havia um time mais compacto, capaz de se defender até com nove jogadores, superior ao Guarani no primeiro tempo, mas dominado no segundo, até as entradas de Danilo e Iarley, que voltaram a criar ligação com o ataque. A pressão dos torcedores não tem nada a ver com a evolução do rendimento corintiano, não é resposta para um grupo mais disposto, apesar do calor. Esse tipo de procedimento pré-histórico não ajuda.

Os erros de arbitragem foram cruciais, mas não se deve atribuir a eles a má fase do Corinthians. A verdade é que a torcida no poder não funcionou. A imagem emoldurada da crise corintiana é o zagueiro William, o capitão do time, espremido contra a parede pelos torcedores na semana passada, provavelmente recebendo lições de como marcar ou cabecear. Um momento de reciclagem, diria Vanderlei Luxemburgo.

Depois do rebaixamento, o Corinthians insinuava ter se rendido ao futebol profissional. A contratação de Ronaldo, as ações de marketing, a conquista da Copa do Brasil, a convocação de Mano Menezes para dirigir a seleção brasileira e o anúncio de um projeto para a construção do tão sonhado estádio fizeram acreditar que o futuro havia chegado.

Parecia um clube disposto a desfrutar de sua grandeza e transformá-la num ativo importante na busca pelo futuro. Foi passageiro, apenas mais um engano. A gestão do atraso voltou à cena pelas mãos da mesma diretoria que dava sinais de modernização.

Os cartolas não só permitiram como incentivaram métodos de pressão que vão da intimidação moral à física. Protesto é na arquibancada, feito pelos verdadeiros torcedores, jamais por aqueles que acreditam ser os donos da instituição. Nosso futebol continua dominado por torcedores profissionais e dirigentes amadores. E ainda queremos que a estrutura funcione. Não pode dar certo.

Esse tipo de ação só ajuda a piorar, jamais fará um time correr, impulsionado pelo medo da torcida. Onde está o presidente do clube? Com a chave do portão na mão. Desde o início da temporada de palestras e prensas nos jogadores, o Corinthians disputou nove pontos e ganhou apenas um, diante do Guarani. Tite chega para comandar o time no clássico contra o Palmeiras e conhece o significado disso. Por enquanto, sabe-se que a torcida no poder também não deu certo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.