A última do Palmeiras

Antes de retomar a coluna, dei uma olhada nos e-mails recebidos no período de férias. Entre Super Bowl, Rali no Maranhão, Campeonato Brasileiro de Bodyboard, um, em especial, chamou minha atenção. "Kia Motors do Brasil anuncia patrocínio master ao Palmeiras''. Nele se divulgava o impressionante acordo entre o clube e a montadora, num montante capaz de provocar inveja a todos os demais clubes do Brasil.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2012 | 03h03

Como é possível uma coisa dessas? Faz anos que o Palmeiras não ganha nada. São frequentes suas crises, suas tragédias e suas trapalhadas exploradas pela mídia. Raro é o dia em que os jornais e TVs não divulgam a notícia de alguma tempestade, equívoco, engano, ou ideias que beiram à insanidade.

E de repente me ocorreu perguntar se não há método nessa loucura. Se tudo no Palestra não é feito de caso pensado, se não há um gênio da publicidade que percebeu o óbvio, isto é, que o importante não é ganhar títulos, mas estar na mídia, ter visibilidade. E isso, convenhamos, o Palmeiras tem de sobra.

Há outros clubes que vivem sobretudo de marketing, é verdade. Mas se utilizam em geral de um marketing, digamos, do bem. Quando contratam jogadores complicados, a intenção é recuperá-los para jogar, a polêmica não parece estar nos planos.

No Palmeiras, desde o começo, a possibilidade da controvérsia parece estar na cabeça de todos. Ora é um treinador especialista da polêmica, ora um jogador que faz declarações espantosas, ou um dirigente que sai dizendo maluquices, ou tudo isso junto e ao mesmo tempo, sem falar na torcida que de vez em quando espanca um jogador.

Não será esta uma ação cuidadosamente coordenada, fazendo parte dela esses episódios destinados a colocar o clube em evidência constante? Será que as contratações, por exemplo, não são feitas com um olho no que jogam e outro no que produzem em notícias? Não seria isso que justifica os Kleber, os Valdivia ou até o recém-chegado Daniel Carvalho, que começou já lançando uma bomba? E não são eles preciosos?

Quando as coisas andam bem, não há o que noticiar. Um clube gerido sobriamente, num clima ordeiro que lembra o escritório de uma multinacional alemã, não interessa a ninguém. Títulos o Palmeiras tem de sobra, mas na falta deles é preciso fabricar notícias, novidades.

A marca Palmeiras é fortíssima e está no imaginário de todos, a tarefa é mantê-la em evidência, ocupando espaço igual, muitas vezes superior, a todos os grandes do país, como prova essa negociação com a Kia. Não pode ser apenas sorte.

Quero acreditar que isso tudo seja obra de uma inteligência superior de um Maquiavel que, nas sombras, nos bastidores, manobra de maneira sincronizada e racional um exército de eficientes produtores de notícia. Neste momento alguém, escondido nas ruínas do Parque Antártica, comemora o acordo com a Kia.

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