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Reginaldo Leme
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A versão e o fato

Nem preciso dizer que já vi várias vezes o filme "Rush", algumas por conta de convites que recebi para palestrar com convidados antes da exibição do filme, outras por puro prazer. Desde o lançamento oficial, duas semanas atrás, o que eu mais ouço das pessoas nas ruas é elogio ao filme. Quem já viu, sabe o que estou dizendo. Quem não viu, gostando ou não de Fórmula 1, deve ver. E quem gosta de cinema, mais ainda. Com toda a licença poética natural de um roteiro que busca alcançar muito mais do que o fã de automobilismo, o filme é muito fiel à história de uma rivalidade que, mesmo não sendo a mais famosa de tantas que marcaram época, tem como conteúdo duas personalidades absolutamente distintas - um playboy despojado e um sujeito que leva tudo excessivamente a sério -, além de um acidente quase fatal envolvendo um desses dois pilotos. Portanto, havia assunto para uma boa narrativa. Mas o filme ultrapassa tudo isso graças à genialidade do diretor Ron Howard, que já tem um Oscar e duas indicações, e à interpretação do alemão Daniel Brühl, o Niki Lauda da história.

REGINALDO LEME, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2013 | 02h09

A licença poética não invadiu a realidade. Eu vi o filme com os olhos de quem viveu aquilo e, em duas horas de filme, passaram pela minha mente milhares de lembranças, momentos desfrutados nas pistas e à margem delas. Em 1976, embora já fosse meu quarto ano na F-1, eu ainda estava aprendendo a conviver com aqueles meus ídolos. Eu não era nem muito Lauda nem muito Hunt. Como Emerson tinha deixado a McLaren para correr pela Copersucar, minha torcida era mais por José Carlos Pace, que começava a despontar na Brabham, e pelo sueco Ronnie Peterson, um dos caras mais adoráveis do meio. Além de ser diferente da turma, por vir constantemente ao Brasil em companhia do Emerson, Ronnie havia se tornado, para mim e para o Castilho de Andrade, meu companheiro na cobertura da F-1 para o Jornal da Tarde, o primeiro amigo não brasileiro. Portanto, eu não tinha lado naquela briga, mas, de fato, a desclassificação do Hunt na Espanha, porque a asa traseira mediu 1,5 centímetros a mais tinha sido uma injustiça. Me lembro de como os mecânicos da própria McLaren debocharam daquela situação, escrevendo na traseira do carro: "Caution, Long Vehicle". Era comum ver isso escrito na traseira dos caminhões de carroceria dupla trafegando pelas estradas da Inglaterra.

Eu conheci a esfuziante Suzy Hunt e também conheci Marlene Lauda. O filme não conta que, antes de conhecer a Marlene, Lauda vivia nos boxes com uma namorada chamada Mariela. Quando Suzy trocou Hunt pelo ator Richard Burton, o piloto reagiu exatamente com aquela aparência de desprezo narrada no filme. Nessa época eu tive a oportunidade de estar apenas com ele e um jornalista inglês, numa longa caminhada do Hotel Beach Plaza até a curva Mirabeau, de onde um carrinho de golfe levava pessoas credenciadas até os boxes de Mônaco. Enquanto esperávamos nosso transporte, alguém levou para ele um jornal com a foto de Suzy e Burton. Enquanto as pessoas riam, ele simplesmente levantou o jornal e mostrou a foto para todos. Era esta a sua defesa.

O melhor do filme, pra mim, é a interpretação de Niki Lauda. Daniel Bruhl consegue imitar perfeitamente a dicção do Lauda. A explicação que ele faz do que é "sentir" todos os defeitos do carro através da bunda é o retrato de uma época em que não existia o auxílio da informática para se ajustar um carro. Tudo era feito através da sensibilidade do piloto e da forma como ele transmitia isso para o engenheiro. A revolta dos jornalistas italianos quando Lauda desistiu por vontade própria nas primeiras voltas da corrida decisiva, não seria diferente nos dias de hoje.

A frase do repórter do Corriere Della Sera, Nestore Morosini, gritada na sala de imprensa, nunca me saiu da mente: "Desistiu por paura (medo)". Claro que não poderia ser outra a manchete do Corriere no dia seguinte. Lauda só foi perdoado um ano depois, quando conquistou o título de 77 pela Ferrari. Entre as licenças poéticas do filme, está a última ultrapassagem feita pelo Hunt na pista do Japão. Na verdade, foi em cima do australiano Alan Jones, mas no filme ele ultrapassa a Ferrari de Clay Regazzoni para conseguir o 3.º lugar que lhe garantia o título. Ficou melhor a versão do que o fato.

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