A vez da beleza

Não estou entre os que dizem que ver futebol, como comer pizza, é bom mesmo quando ruim. É verdade que às vezes na pelada mais tosca pode haver um toque do sublime, mas é preciso ser um romântico à Nelson Rodrigues para achar que isso compensa os outros 89 minutos e meio de modorra ululante. O que eu espero mesmo são os jogos decisivos, os confrontos entre dois grandes clubes ou entre um grande e um menor em um dia D. Já vimos alguns bons jogos neste ano, mas foram precisos mais de 100 dias para que a fase mais ansiada chegasse. Da segunda quinzena de abril em diante é que o amante do ludopédio vê, enfim, o clímax, ou uma sequência deles, e a história sendo escrita com paixão.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2011 | 00h00

Hoje, por exemplo, a Libertadores tem dois jogos que vão definir o destino dos dois times brasileiros que eram os mais cotados no início, o Fluminense (contra Argentino Juniors) e o Santos (Deportivo Táchira). A situação do clube de Nelson Rodrigues, como se sabe, é para lá de dramática. Já os meninos da Vila, que vão jogar no Pacaembu, têm missão mais fácil. Diante do Cerro Porteño, na quinta passada, as voltas de Arouca e Jonathan e a noite concentrada de Ganso - não que tenha sido tão brilhante quanto disseram, mas uma assistência, dois chapéus e outros lances mostraram de novo sua classe - fizeram o Santos superar as ausências de Neymar e Elano.

No que diz respeito ao Campeonato Paulista, nem preciso dizer. Foram 19 rodadas de interminável expectativa - não exatamente sobre quais seriam os classificados, e sim para ver seu enfrentamento. Os quatro grandes se classificaram com a chuteira nas costas, como previsto, e com isso adiaram para as semifinais os promissores clássicos. Nas quartas de final, porém, os jogos podem ser bons, já que, nessa fórmula esdrúxula, não têm ida e volta. Durante 90 minutos, uma jogada tosca de um zagueiro e/ou um toque sublime de um atacante podem classificar o time que não é favorito.

A Ponte Preta, por exemplo, pode trazer problemas para o Santos, ainda mais porque este tem foco na Libertadores. O Palmeiras tem coesão tática e preparo físico, mas, quando Valdívia não está em campo ou não está inspirado, dificilmente sai do trivial. O Corinthians caiu na real nos últimos jogos, com a falta de distribuidores no meio campo e de alguém com quem Liédson possa dividir a responsabilidade de fazer gols. E o São Paulo é o elenco com mais alternativas e tem Lucas e Dagoberto em fase muito boa. Os estaduais deveriam ser mais breves (começar mais tarde e terminar mais cedo), mas têm charme e, enquanto o Brasileirão for de maio a dezembro (não em sincronia com Europa), não deixam de ser a chance de ver acirrados dérbis e novos talentos.

Expectativa mesmo, de dimensão mundial, é o que tem causado a série de duelos entre Barcelona e Real Madrid. No primeiro desses quatro jogos, no sábado, muitos disseram que o Real Madrid foi melhor, afinal empatou com um jogador a menos. Mas, como disse o grande Alfredo Di Stéfano, é um futebol sem identidade, chato de ver, mesmo com os talentosos Cristiano Ronaldo, Özil e Di Maria. Já o Barça gosta da bola e nos faz gostar de ver o time; a meu ver, cometeu apenas o pecado de tentar "administrar" a partida no Santiago Bernabéu em vez de partir para o segundo gol, mas tem mais individualidades e mais conjunto. De qualquer modo, ninguém é insano de descartar a hipótese de o Real Madrid se sair bem hoje, na Copa do Rei, e também nas semifinais da Champions.

Comentei outro dia o perfil de Messi escrito pelo jornalista Roberto Saviano que está no recém-lançado A Beleza e o Inferno, em que fala da beleza de seu jogo, a maneira como desliza sem cair entre adversários bem mais altos e sempre em direção ao gol, diante do qual desenvolveu uma tranquilidade que nem sempre tinha. Como já escrevi há muito tempo, sou viciado em craque: admiro a feitura de um lance bonito até por um jogador mediano (como o golaço do meio campo que Stankovic, da Inter de Milão, fez recentemente), mas um verdadeiro craque em campo é a maior promessa de futebol com beleza, de criar um inferno só para as defesas. O torcedor, pizza murcha à mão, não quer mais nada.

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