A vida dos nossos ídolos

Amigos, como vocês sabem, escrever biografias é uma das tarefas mais inglórias neste País. O escritor tem de obter autorização do personagem e, no caso deste já não estar entre nós, de seus herdeiros. Ou seja, se a legislação não mudar, só teremos por aqui as chamadas biografias "autorizadas". Isto é, perfis chapa-branca. Teremos do biografado o retrato que ele bem desejar, ou achar mais correto. Ou que seus herdeiros entenderem como mais conveniente para a administração do mito, e dos negócios.

Luiz Zanin, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2013 | 03h06

Isso para dizer que essa situação atinge a todos nós que gostamos de futebol. Temos nossos ídolos, passados e presentes, e queremos saber de sua história da maneira mais honesta possível. Eu mesmo sou um apaixonado por biografias de jogadores. Talvez porque tenha lido a primeira ainda na infância, época em que nosso caráter é moldado para sempre. Não sei como caiu nas minhas mãos um livro, Eu Sou Pelé, escrito por Benedito Ruy Barbosa, que depois se tornou o famoso autor de novelas na TV. Narrado em primeira pessoa, era necessariamente incompleto, pois, lançado, pelo que me lembro, no início dos anos 1960, começo ainda de uma carreira futebolística que já se sabia estupenda, mas não se sabia até onde poderia chegar.

Em todo caso, com aquela permanência da memória que só temos na infância ou na primeira juventude, me lembro até hoje de passagens do início dessa trajetória sem igual do Rei Pelé. A família mineira, o pai, Dondinho, excelente jogador mas com problemas de joelho; a final da Copa de 1950, o pai triste ao pé do rádio e o menino, então com nove anos, prometendo um dia lhe trazer a Copa. Depois, as histórias da seleção de 1958, a mais fértil em mitologias: a simplicidade maliciosa de Garrincha, o humor do dentista Mário Trigo, a liderança do dr. Paulo Machado de Carvalho, os gols famosos, entre os quais aquele contra o País de Gales que até hoje Pelé considera o mais importante de sua carreira. Tudo ficou marcado a fogo na memória do então menino que eu era e que devorava com ardor aquelas páginas.

Li, muito depois, outras biografias de Pelé, inclusive a escrita por meu querido amigo José Castello, Os Dez Corações do Rei. Esta é muito interessante porque obra de um "não especialista", crítico literário e não um cronista de futebol. Por isso mesmo, talvez, seu trabalho seja mais interpretativo do que factual, enriquecendo muito a nossa compreensão desse milagre esportivo chamado Pelé. Li também a autobiografia do Rei, muito boa, por sinal: a sua vida por ele mesmo, sem intermediários a não ser um ghost writer.

Mas é evidente que uma personalidade desse porte ainda precisa de uma biografia que se possa chamar de "definitiva". Uma vez, entrevistando Pelé, ele me pediu conselho sobre quem poderia fazê-la. Falei em Fernando Morais, autor do estupendo livro sobre Assis Chateaubriand. Não sei se o papo entre os dois rolou. Só sei que um livro completo, escrito por um grande biógrafo, teria de conter tanto a glória do gênio quanto os tropeços do ser humano. Em sua coluna, Juca Kfouri conta que iria escrever a biografia do Rei, mas este não gostou quando o jornalista lhe disse que abordaria o chamado "pacto da bola" com João Havelange e Ricardo Teixeira num capítulo intitulado "O dia em que Edson traiu Pelé". Como o ex-jogador não gostou da ideia, o projeto de biografia não foi adiante.

Ora, nem tudo é glória na vida de um homem, por maior que ele seja. Freud, Darwin, Beethoven deram suas pisadas de bola, devidamente registrados por quem estudou suas vidas e as escreveu. Por que não os jogadores? Garrincha foi imenso, porém era alcoólatra grave e morreu desse mal, como está dito no irretocável A Estrela Solitária, de Ruy Castro. Heleno de Freitas, o craque galã e bem nascido, morreu louco, num sanatório, acometido de sífilis, como conta Marcos Eduardo Neves em seu livro Nunca Houve um Homem como Heleno.

Os erros e defeitos dos nossos ídolos os diminuem aos nossos olhos? Acho que não. Pelo contrário. Nos garantem que foram homens, como nós, porém geniais naquilo que faziam. Não somos crianças. Podemos aceitar imperfeições.

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