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Paulo Calçade
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A virtude do freguês

O Chile impressiona pela postura, pelo sistema ofensivo, pela clareza de proposta e porque quer comandar a partida, independentemente de quem estiver do outro lado. Joga com três zagueiros baixos, aposta na densidade de seu meio de campo encorpado pelos laterais, e acredita muito em Alexis Sanchez. A beleza dessa história, do time que se imagina no clubinho dos grandes e pretende atuar como tal, mas que invariavelmente sai derrotado pelo Brasil, é o conteúdo do seu jogo.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

30 Março 2015 | 02h04

O treinador argentino Jorge Sampaoli tem uma ideia, e ela não é pequena, não é simplória. É inegociável. Poderia jogar fechado, contra-atacando, preparado para se beneficiar de um erro do adversário.

Mas isso é pouco para ele. Com muito menos poderio técnico que a seleção de Dunga, caça vitórias tentando confirmar a nova identidade do futebol chileno. Seria muito bom vê-lo por aqui, treinando um time brasileiro, apesar de não estar disposto a enfrentar o nosso calendário criminoso, esse que fez o Corinthians jogar quatro partidas em oito dias.

Desde Marcelo Bielsa, e agora com Sampaoli, os chilenos são adversários especiais. Enfrentá-los é um tapa na cara do futebol brasileiro. Já virou lugar-comum dizer que jogam como nunca e perdem como sempre. Mas não se acovardam. Deixam as limitações em segundo plano para marcar seu território no futebol.

Com as alterações no segundo tempo, a seleção brasileira evoluiu bastante quando quase todo o time titular esteve em campo. Melhorou o funcionamento, mas não mudou a postura. Venceu com bola longa de Danilo para Roberto Firmino, lançamento vertical, puríssimo contra-ataque, normal para o atacante do Hoffeinheim, 7º. colocado da Bundesliga.

A diversão está na vitória, virtude do placar. O resultado é sempre mais importante que a maneira como se chega a ele. Não vamos nos iludir, quem não trocaria os 7 a 1 por um jogo que expusesse menos as nossas fraquezas? No perde e ganha do campo, a competição se explica pelo instinto de preservação.

Negociada pela CBF, humilhada pela Alemanha, a camisa amarela é a que possui os melhores resultados do pós-Copa e parece ser o time mais arrumado e consistente. Já são oito vitórias em amistosos sob o comando de Dunga, o melhor início de um treinador desde João Saldanha, em 1969. São os fins justificando os meios.

O grupo da Copa América está praticamente formado, e o treinador não tem dúvida sobre como deseja jogar. É mais ou menos o que se viu em 2010, agora com novos nomes e um talento chamado Neymar. A seleção não gosta e não é incentivada a propor o jogo, funciona melhor quando se infiltra nos espaços criados pelos movimentos do adversário.

É pouco, independentemente do seu nível, qualquer seleção do Brasil deveria ser incentivada a gostar mais da bola. A vitória registrou 41,5% de posse, com 32 faltas brasileiras e 15 chilenas. Quando nos lembramos da tragédia da Copa, os resultados parecem mesmo ótimos. Mas seriam melhores se o nosso futebol pudesse também ser um futebol de boas ideias e de novos ideais.

O jogo mostrou também que um árbitro inglês é capaz de se adaptar ao jogo sul-americano. Normalmente ouvimos o contrário, que os apitadores brasileiros deveriam mirar o estilo europeu, e não interromper a partida a qualquer falta.

O problema é que na prática não é assim que funciona. Faltas são faltas, sejam faltonas ou faltinhas. E Martin Atkinson não demorou muito para começar a marcar tudo o que via pela frente, numa clara adaptação ao jogo que se pratica nesta parte do hemisfério, pouco cordial e sem nenhum traço da realeza britânica.

Hoje Atkinson sabe como se joga futebol no Brasil e na América do Sul, e que a regra é uma só. Apito e cartões, amarelos e vermelhos, são instrumentos de trabalho e não adereços carnavalescos.

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