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A volta

Derrotas são duras de engolir, mas de efeitos menos duradouros que as vitórias. As derrotas tendem a passar com a primeira vitória, sobre elas desce um esquecimento rápido que só aumenta com o tempo. Se o São Paulo acabar ganhando essa Libertadores quem se lembrará da derrota para o Palmeiras?

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

29 Março 2015 | 02h01

A vitória, por outro lado, é transformadora. Assinala um momento decisivo, uma divisão na vida: antes e depois dela. Em agosto ou setembro do pré-histórico ano de 1958 o Palmeiras, fiel à sua própria história e modo de ser, não ganhava do Corinthians havia 15 partidas oficiais! Era um daqueles períodos bastante comuns na vida do clube onde tudo parece afundar e as tragédias parecem não ter fim. Perder tantas partidas assim para o arquirrival (não o arqui-inimigo) era triste para qualquer torcedor.

Naquele ano o Palmeiras iniciava uma renovação que culminaria com um time que, por anos, lutou de igual para igual com o Santos de Pelé. O único time de São Paulo , aliás, que equilibrava confrontos com aquele Santos de fábula e sonho.

Pois acho que foi também numa noite de quarta feira que o Palmeiras colocou em campo seu novo time, com alguns novos e importantes contratados, para enfrentar o adversário tantas vezes invicto. É claro que a imprensa, a cada Palmeiras x Corinthians, lembrava obsessivamente o tabu. E realmente ninguém acreditava que pudesse ser quebrado naquela noite do Pacaembu. E da maneira como foi.

Com uma atuação impecável, dando olé e show de bola, o time do eterno Parque Antártica fez 4 x 0 no Timão, com três gols de Paulinho, recém-chegado do Flamengo, e um do grande Julio Botelho, também acabado de chegar da Fiorentina. A vitória, não só a vitória, mas o esmagamento do adversário atônito, transformou o time.

No dia seguinte era outro Palmeiras que entrava em campo. Como tantas vezes na sua história, esse clube que só se interessa por grandes feitos, que sabe que uma vitória só é uma vitória se for épica, tinha virado outro. O placar e a partida apontavam não apenas para novas vitórias, isso qualquer clube consegue de vez em quando, mas para um grande time pronto para fazer história.

Esse jogo eletrizante do perdido ano de 1958 me veio à cabeça durante a partida da última quarta feira com o São Paulo. O mesmo descrédito por anos e anos. A mesma longa escuridão que parecia não ter fim, o mesmo ceticismo de todos até quanto à grandeza do clube. E de súbito ele volta. Não sei se não seria preciso escrever, a cargo de algum historiador do clube, o Jota Roberto, por exemplo, uma espécie de manual explicando para jovens torcedores como é o clube. Não um manual cheio de estatísticas e números, mas um exame de sua alma. Da personalidade que foi construindo ao longo de décadas e décadas que, soterrada pelos fatos do dia a dia, só aparece quando olhada de muito perto e em ocasiões especiais.

O Palmeiras vive de extremos, de fatos levados nos seus limites. Não interessa um título, interessa um grande título, não interessa um triunfo apertado e suado, mas um grande triunfo. O mesmo vale para as derrotas. São sempre catastróficas, abissais, terríveis. São nesses extremos que o clube vive. Desce até o fundo do mar e depois vai penosamente lutando, tentando voltar à superfície que parece não chegar nunca. Mas de repente emerge das águas com a violência de quem estava se afogando e a alegria de quem revive.

Talvez a equipe atual aponte para um grande time que está chegando. Não há mais Julio Botelho, Valdir de Moraes, Djalma Santos, Chinês, é verdade. Mas por um momento talvez Arouca, Dudu, Zé Roberto, Robinho, fizeram com que eles se materializassem de novo diante de todos, como em 58. A vitória de quarta-feira, sobre um adversário tradicional e poderoso, é sinal mais do que claro que alguma coisa mudou. O Palmeiras, um dos Palmeiras possíveis, o vencedor, pode estar de volta.

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