Aberrações de fim de campeonato

Boleiros

Ugo Giorgetti, ugog@estadao.com.br, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

Termina hoje o Campeonato Brasileiro. Haverá um campeão e mais três que vibrarão de júbilo, a meu ver um pouco exagerado, pelo simples fato de que estarão na próxima Libertadores. A todos os quatro parabéns, cumprimentos pelas campanhas, etc, etc. Chegaram lá, alguns por competência, alguns por sorte, alguns pelas duas coisas. Como pouca gente vai se ocupar dos que sequer estiveram perto de chegar entre os quatro, isto é, os perdedores, queria me dedicar a eles, porque vejo nesse grupo algumas grandes injustiças. A primeira delas vou pegar lá embaixo na tabela, também por uma questão sentimental - é a Portuguesa.E já vou dizendo de cara: a Portuguesa não deveria ter caído para a Segunda, simplesmente porque tem um time melhor do que o Náutico, muito melhor do que o Vasco, só para pegar dois exemplos. Vi a Portuguesa ganhar do Grêmio, empatar, no Maracanã, com o Flamengo, perder no último minuto para o São Paulo. Não deveria ter descido. O problema da Portuguesa talvez seja de que é o único time que não tem efetivo mando de campo durante todo o campeonato. Contra o Sport, no Canindé, a torcida do Sport era maior; contra o Grêmio a torcida do Grêmio era bem maior. Isso complica muito as coisas. Mas não era time para cair e vou sentir falta da Portuguesa.As outras duas aberrações se devem à nociva interferência de torneios estrangeiros nos campeonatos brasileiros. Ficamos privados de ver dois dos melhores times do País disputando o título brasileiro por estarem se dedicando a competições fora. Um é o Fluminense, que tem um timaço. Depois de ter apostado seu futuro na Libertadores, diante do enorme desastre teve de se esforçar para escapar do rebaixamento, quando deveria estar disputando o título. Tem um bom goleiro, um grande zagueiro de área, um ótimo ala-esquerda, e mais Arouca, Conca, Washington, etc. Joga solto e bonito. Deu um baile no Palmeiras, no Maracanã, e fez correr um frio pela espinha da torcida do São Paulo domingo passado.O outro lastimavelmente ausente das primeiras colocações é o Inter. Pelo menos se deu bem na Copa Sul-Americana. Como acho essas competições uma espécie de caça-níqueis, inexplicavelmente valorizadas, lamento não ter visto o Inter mais vezes no Campeonato Brasileiro. Porque ver esse time jogar completo é um privilégio. Para torcedores ainda capazes de ver futebol de modo amplo, e não só seu time e a vitória a qualquer custo, ver jogar Alex, Nilmar e D?Alessandro é como uma volta no tempo.Vejo algo de Careca no Nilmar, um tanto do Djalminha no D?Alessandro, um pouco do Müller no Alex. Esse D?Alessandro, aliás, vem provar que essa conversa de que jogadores antigos não jogariam hoje não passa do que é: conversa. O argentino é um típico jogador antigo: não é atlético, marca pouco, não corre muito. Mas não erra passe, sabe proteger o lance e tem um cérebro. É o que basta para jogar bola. O Inter, enfim, é um time que dá gosto ver jogar. Não estou dizendo ver ganhar, estou dizendo ver jogar. Há uma diferença, podem crer.Se esses dois times, Fluminense e Inter, estivessem entre os quatro primeiros, é possível que não houvesse tanta reclamação sobre o baixo nível do campeonato. O futebol brasileiro, no que tem de mais autêntico, sairia ganhando. Mas os dois acabaram sendo atraídos por outras competições Uma pena. Perdemos nós.

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