Twitter/@SUSIEQMUSIC/via REUTERS
Twitter/@SUSIEQMUSIC/via REUTERS

Absolvição de jogadores irlandeses aprofunda debate sobre abuso sexual

Acusados de estupro, Paddy Jackson e Stuart Olding escaparam de condenação, mas tiveram contratos cancelados

Ed O’Loughlin / NYT / DUBLIN, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2018 | 07h00

O julgamento de nove semanas por estupro envolvendo dois astros em ascensão do rúgbi profissional irlandês petrificou e deixou horrorizada a opinião pública em ambos os lados da fronteira da Irlanda. A absolvição de ambos em março deveria acalmar as emoções e permitir que as divisões fossem curadas.


+ 'Assédio é ruim e triste para o futebol, mas é muito comum’

+ 'Não quero nada do Santos. Quero que o pedófilo pague pelo que fez'

+ Polícia investiga novos casos de abuso sexual ligados a coordenador da base

Em vez disso, semanas depois que os atletas – Paddy Jackson, de 26 anos, jogador internacional irlandês e da província de Ulster; e Stuart Olding, 25 anos, que também jogou pela Irlanda e pelo Ulster – saíram livres do tribunal de Laganside, em Belfast, o furor continua sobre o que alguns descrevem como uma tóxica cultura masculina no esporte de elite, e ainda há debates acirrados sobre opiniões divergentes quanto a consentimento sexual.

Na semana passada, foram cancelados os contratos dos jogadores de rúgbi, encerrando suas carreiras profissionais na Irlanda, com alguns expressando temor de que a medida pudesse inflamar ainda mais a opinião pública. A decisão de demitir os dois jogadores foi em resposta ao receio dos patrocinadores comerciais de que o retorno dos homens prejudicaria a imagem de um esporte cuja popularidade tem crescido nos últimos anos – também entre as mulheres irlandesas.

Defensores dizem estar convencidos de que, uma vez que os dois foram liberados no caso de agressão sexual, eles deveriam ser autorizados a jogar rúgbi profissional novamente.

Mas, para muitos – como Louise O’Neill, jornalista irlandesa e autora do best-seller internacional Asking for It que aborda questões de consentimento e estupro – o veredicto original foi chocante e traumatizante.

“Se eles honestamente acham que ela consentiu ou não, eu jamais conheci antes uma mulher jovem que sai de uma experiência sexual consensual em lágrimas e com sangramento, só isso”, disse O’Neill.

O caso do Ulster começou quando uma jovem de 19 anos disse que foi estuprada em junho de 2016 em uma festa na casa de Jackson. Em um texto para um amigo um dia depois da festa em casa, ela parecia intimidada ante à perspectiva de enfrentar os homens que havia acusado: “Eu não vou à polícia. Eu não estou indo contra o Ulster Rugby. Sim, porque isso vai criar comoção”.

Jackson e Olding foram acusados de estupro e agressão sexual. O julgamento centrou-se principalmente em discutir se a mulher consentira com os atos praticados e nos relatos, por vezes contraditórios, do que havia sido feito e por quem, numa noite regada a álcool.

Olding disse que ele teve sexo oral consensual com a mulher, mas ambos negaram ter tido sexo vaginal com ela. Um motorista de táxi que a levou para casa testemunhou que ela “chorou durante toda a viagem” e que ele viu sangue em seus jeans brancos. Um médico disse ao tribunal que ele havia observado uma laceração sangrando em sua vagina. Mas, especialistas em defesa argumentaram que isso não era prova de estupro ou mesmo que ela tivesse tido sexo.

A jovem passou oito dias no banco das testemunhas sendo questionada por cada um dos advogados dos réus. Ela ficou sentada no tribunal enquanto sua calcinha era passada para o júri examinar. Os advogados de defesa citaram um testemunho de que a jovem não resistiu fisicamente nem gritou por ajuda de outras mulheres que estavam no andar de baixo.

O direito penal na Irlanda do Norte, parte do Reino Unido, baseia-se no princípio de que a culpa deve ser provada além de qualquer dúvida razoável. E, depois de um julgamento exaustivo, os dois jogadores – e dois de seus amigos acusados de crimes menores – foram unanimemente inocentados por um júri de oito homens e três mulheres, após menos de quatro horas de deliberação.

Nos degraus do tribunal, o advogado de Jackson, Joe McVeigh, criticou a autora da denúncia e a polícia por aceitar o caso. Olding, falando através de seu advogado, afirmou que tudo havia sido consensual, mas disse: “Sinto muito pela mágoa que foi causada à queixosa”.

Mas, ativistas contra o estupro e defensores das mulheres disseram que algumas das evidências produzidas no tribunal, particularmente mensagens privadas enviadas entre os jovens e seus amigos, geraram questões perturbadoras quanto à atitude de alguns irlandeses em relação ao sexo.

CONVERSA

Registros do tribunal mostraram que, após a festa, Olding postou uma mensagem – “Somos todos grandes f*” – para um grupo privado do WhatsApp que incluía Jackson também. O grupo trocou mensagens pretensiosas, abusivas e misóginas que pareciam se referir à jovem mulher, incluindo: “Sem piada, ela estava histérica”. Um dos integrantes do grupo concluiu uma troca gráfica com “Legendas !!… Por que todos somos tais legendas?”.

Os advogados de defesa argumentaram que os comentários não passavam de exageradas ironias juvenis. Mas, essas observações e a mordacidade desencadeada por alguns dos defensores dos homens contra a mulher, cuja identidade está protegida no sistema legal da Irlanda do Norte, foram fortemente condenados.

Depois do veredicto, alguns pediram que ela fosse identificada e punida por tentar arruinar a vida de jovens inocentes.

Luke Rossiter, jogador semiprofissional do time de futebol Drogheda United, da República da Irlanda, pediu pelo Twitter que ela fosse “presa” e dirigiu abusos obscenos para as mulheres que a apoiaram. Depois, pediu desculpas por seus comentários “estúpidos e imaturos” e prometeu doar seus salários do restante da temporada para um centro de crise de estupro.

O veredicto não conseguiu abrandar a ira dos partidários da jovem e sobreviventes de violência sexual, que continuaram a se reunir sob a hashtag #ibelieveher (eu acredito nela).

Na semana seguinte, Jackson fez uma declaração de arrependimento: “Tenho vergonha de que uma jovem visitante da minha casa tenha ido embora em estado de angústia. Essa nunca foi minha intenção”.

Cara Cash-Marley, principal executiva do Nexus, um serviço de aconselhamento sobre estupros na Irlanda do Norte, disse que o julgamento expôs novamente o pesado ônus da prova que é colocado sobre aqueles que apresentaram queixas de agressão sexual.

Ela disse que as vítimas deveriam ter permissão para registrar suas evidências enquanto estas estivessem frescas em suas mentes, em vez de esperar repeti-las várias vezes – e, finalmente, anos depois, serem agressivamente interrogadas num tribunal.

TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.