Divulgação/CBDA
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'Acho melhor chegar como favorito na Olimpíada', diz Cesar Cielo

Campeão olímpico diz que pressão não o incomoda e que não está preocupado com adversários

Entrevista com

André Cardoso, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2011 | 03h06

SÃO PAULO - Nos Jogos de Londres, Cesar Cielo pode se tornar o maior campeão olímpico do Brasil. Ele é favorito ao bicampeonato nos 50 metros livre e está entre os candidatos ao título também nos 100 metros livre, podendo chegar ao recorde de três medalhas de ouro na carreira.

Desde que ganhou ouro nos 50 m livre e bronze nos 100 m livre na Olimpíada de Pequim, em 2008, Cielo vem dominando as provas de velocidade. Nesse período também foi campeão mundial e recordista das duas distâncias. Mesmo diante de tantos feitos, ele mantém a motivação de sempre.

Cielo teve um 2011 complicado. Flagrado no exame antidoping em maio, ele provou sua inocência. Depois brilhou nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, quando ganhou as quatro provas que nadou. "O Pan foi uma luz", admite.

A preparação para a Olimpíada começou logo depois do Pan. Ele treina diariamente em São Paulo, mas deve ficar um período fora do Brasil. Assim, espera superar Robert Scheidt, Torben Grael, Marcelo Ferreira, Adhemar Ferreira da Silva, Mauricio Lima e Giovane Gavio, todos os bicampeões olímpicos do esporte brasileiro. E, como tem 24 anos, ainda pode aumentar esse recorde nos Jogos do Rio, em 2016.

O que representa a disputa de uma Olimpíada para você?

O sonho de qualquer atleta é chegar numa Olimpíada. Mas, sendo bem sincero, eu nunca tive o sonho de chegar para ser um atleta olímpico, eu sempre quis chegar para conseguir mais do que isso. Eu não queria olhar para trás e ter participado da Olimpíada. Eu queria olhar para trás e ter tido um resultado bacana mundialmente.

Mas a campanha em Pequim parece que foi o salto de confiança na sua carreira?

Foram vários estágios até chegar lá. Mas a Olimpíada de Pequim foi mais especial porque foi a minha primeira medalha de nível mundial. Eu cheguei em Pequim com o objetivo de trazer uma medalha, não queria saber qual medalha seria e qual seria a prova. O bronze (nos 100m livre) foi uma realização muito grande. Aquilo foi um momento de transição na minha vida. Numa manhã, eu mudei completamente, acho que até de personalidade. Mudou a minha história.

O que esperar do Cesar Cielo em Londres?

Quero chegar na melhor capacidade física e mental, que é assim que eu acredito que funciona. Acredito que posso ganhar de novo os 50m livre e que eu posso também desafiar os caras nos 100m livre. Mas a minha prioridade é ganhar essa medalha todo dia nos treinos. Todo dia tem que ser um dia de preparação acima do normal. Normalmente, tento colocar toda a tensão de competição no treino e a competição acaba sendo a hora de relaxar e colocar tudo em prática. Treinar é o momento de maior tensão para mim.

Quem são os rivais em Londres?

Em ano olímpico sempre aparece gente nova. Eu estou focando no meu tempo, sem pensar em adversários. Quero chegar o mais próximo da minha capacidade e da minha perfeição. Depois, vamos ver o que acontece. Nos 100m livre é uma disputa muito forte. Mesmo que todo mundo tenha uma preparação perfeita, o momento da competição é que vai fazer a diferença. Nos 50m livre, vejo de outra forma. Eu e o Fred (o francês Frederick Bousquet) estamos um pouco acima da média dos outros. É difícil dizer isso, mas duas das medalhas devem ficar com nós dois.

O caso do doping mudou a sua preparação?

A gente fica um pouco mais alerta, um pouco mais paranoico. Você acha que tudo tem alguma coisa. Mas a rotina não mudou em nada.

Depois do susto com o doping, sua recuperação foi rápida.

Acabei nadando o Mundial como eu consegui, dentro das condições que eu estava. E o Pan foi uma luz. Eu saí de lá dizendo: 'Agora vai'. Voltei a ser aquele cara que gosta de piscina que eu costumo ser. Saí do Pan ciente do que tenho que fazer, do tanto que eu tenho que treinar, e muito motivado.

Os resultados das competições ficam em segundo plano nessa fase de preparação?

Em uma preparação, ganhar em algumas competições não é importante. A gente ainda vai acertar os objetivos de tempo para cada momento da temporada, mas se desafiar um pouco mais e perder também é importante. A cada competição, a gente vai se testar. A gente foca num tempo e espera que esse tempo seja o melhor para ganhar a Olimpíada, mas não dá para saber o que os outros vão fazer. Natação é basicamente isso: tem que fazer o seu melhor e torcer para que o seu melhor seja o melhor.

Você sente a pressão de ser favorito?

Eu acho melhor chegar assim. Pode ser que eu não ganhe, mas eu já estou focado em abaixar o meu tempo, em fazer o meu melhor. Pressão externa é uma coisa que não me incomoda muito. Eu tenho uma exigência pessoal tão alta que eu fico muito mais frustrado comigo quando eu não consigo alguma coisa do que por estar desapontando alguém.

É possível baixar seus recordes sem o maiô tecnológico?

Até 2016 eles estão ao alcance. Para o ano que vem, ainda não.

Você pode se tornar o maior campeão olímpico do Brasil. Isso te motiva de alguma forma?

Nunca pensei nisso. Não imagino na minha carreira olhando para trás e falando: 'Nossa, sou o maior atleta olímpico do Brasil'. Estou projetando nadar até 2018, mas, sei lá, se em 2014 eu vir que para mim deu isso aqui, para mim deu. Não imagino ficar empurrando a natação pela parte financeira ou qualquer outra razão que não seja continuar melhorando e continuar ganhando competições. Se eu achar que está demais para mim, se a nova geração está pesando muito ou se a minha motivação de treinar está acabando, vou partir para outra. Sempre trabalhei na minha vida com objetivo muito alto. O mais importante para mim hoje é a natação, depois vem o resto.

A natação brasileira está sabendo aproveitar o seu sucesso?

Acho que sim. A gente está com o grupo mais consolidado, em várias provas você pode ver um brasileiro. É uma geração em que subiu muita gente junta, fazendo um sucesso bacana. A gente continua sendo uma equipe nova, que continua evoluindo. Ainda tem espaço para evolução. Só tende a melhorar. Se essa geração continuar treinando do jeito que está, o ápice vai ser em 2016.

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