Acompanhando o jogo no restaurante da cozinheira dos rivais

No Brasil desde 2005, donos do Biyou'Z já são 'locais'

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2014 | 02h02

Mesmo com a seleção eliminada na primeira fase, a Copa foi motivo de alegria para o casal camaronês Victor Macaia, de 47 anos, e Melanito Biyouha, de 43. Poucos dias antes do início do Mundial, eles receberam um telefonema da embaixada camaronesa no Brasil. "Disseram que a seleção estava sem cozinheiro e queriam contratar a Melanito", conta Victor.

É por isso que ela não assistiu ao jogo desta segunda-feira na companhia do marido, dos funcionários - dois deles, camaroneses - e dos clientes no restaurante Biyou'Z, na Alameda Barão de Limeira, região central de São Paulo. "Com isso, ganhamos vários pontos", comemora Victor. Eles abriram o restaurante em 2008, três anos após trocar Camarões pelo Brasil, juntando-se a outros cerca de 200 imigrantes daquele país que vivem em São Paulo.

"No começo, trabalhávamos com comércio", conta ele. Mas Melanito já era talentosa cozinheira, e eles perceberam que, apesar de São Paulo se vangloriar de ter restaurantes típicos, não havia nada ainda que contemplasse a gastronomia africana.

"Tanto deu certo que o restaurante tem cardápio africano, mas a clientela é variada. Brasileiros de todas as cores vêm comer aqui", diz Victor.

O menu tem pratos típicos de vários países africanos. De Camarões, há quatro representantes. Macala é um tipo de bolinho de chuva com feijão. DG traz banana da terra frita com legumes e galinha. Ndole leva pasta de amendoim cozida com folha de boldo, banana da terra cozida e carne. Por último, mbongo tchobi é bagre com mbongo, um tempero africano, e mandioca.

"Viver em São Paulo não é difícil. Basta ser honesto e trabalhar direitinho que a vida é fácil por aqui", avalia Victor. "O brasileiro convive bem com africanos."

O casal, porém, não abandonou completamente Camarões - ficam lá ao menos um mês por ano. Mas, apesar das idas e vindas, Victor se considera cada vez mais brasileiro. Tanto que, ontem, vibrou pela seleção canarinho.

"Se Camarões ainda tivesse chance, torceria para Camarões. Mas chegamos à última fase em uma situação impossível: mesmo se ganhássemos por 1 milhão a zero, estaríamos fora", resigna-se. "Então, sou 100% Brasil."

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