Acordar e sonhar

Neste domingo, os santistas têm de acordar cedinho para viver um sonho. Devem saltar da cama, com adrenalina a toda, bandeira na mão e apito na boca, para ver Neymar, Ganso e sua turma no duelo com Messi, Xavi, Iniesta e o grande elenco do Barcelona. O jogo do ano, pelo menos para o lado de cá do Atlântico, finalmente se tornará real. Se para a banda dos europeus não se trata da oitava maravilha do mundo, problema deles. Se perderem, tanto melhor, e será uma das poucas vezes em que não lamentarei tropeço da estupenda tropa catalã.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h03

Bater o Barça é devaneio? Nas circunstâncias atuais, sim. Proeza para consagrar Durval, Edu Dracena, Henrique, Arouca e demais coadjuvantes? Certamente. Haverá sofrimento? Se tudo sair conforme o previsto, é bom reforçar estoque de calmante e água com açúcar. Dá para confiar? Claro. Não fosse assim, nem haveria sentido o Santos dar a volta no planeta, gastar uma dinheirama e enfrentar frio, fuso, trem bala. Se era para sair derrotado de casa, economizaria mais se ficasse na Vila Belmiro.

Boto fé no Santos. Não por patriotismo, que meu amor pelo Brasil não se traduz em torcer cegamente por nossas equipes. Confio porque creio em ilusões. Pode ser besteira, mas é assim. Nesta altura da vida, depois de cruzar a curva dos 50 e juntar um punhado de decepções pessoais, profissionais, afetivas, o mais previsível era ter postura desalentada, algo cínica e professoral.

Em algumas situações até sigo a natureza e fico com pés no chão, quando não atrás. Na maior parte do tempo, porém, mantenho otimismo - até na boa índoles das pessoas -, pois aprendi com Roberto Salim, o maior repórter esportivo que conheço, que vivemos de pequenos sonhos. Na hora em que os abandonarmos, estaremos fritos e acabados.

O Santos também precisa acreditar em um ideal - e o de hoje é de que tem condições de superar a qualidade extraordinária do adversário. Vou chover no molhado e escrever o óbvio, se disser que o Barcelona tem mais elenco, esquema de jogo eficiente e protagonistas, jogadores com capacidade de definição. Há consenso em torno disso e não vejo nem fanáticos contestarem. Ótimo.

Pois o Santos tem de romper essa constatação. É para isso que viajou para o Japão e carregou centenas de torcedores e milhões de mentes. O Barça tem capacidade irritante para envolver e tapear suas vítimas - com toque de bola vistoso, criativo e longe de ser monótono como imaginam alguns. Insossa é a seleção da Espanha. Se bem que essa é discussão para outro momento.

O papel do Santos é atravancar a evolução harmoniosa do Barcelona, que costuma desfilar pelo gramado com a sincronia de uma escola de samba. Isso pode ser feito e a Inter de Milão mostrou, dois anos atrás, que façanhas acontecem. Na época, ainda dirigida por José Mourinho, formou duas barreiras que Messi e súditos não transpuseram. Sei que não vale muito citar o treinador português, que virou freguês de carteirinha do Barça desde que desembarcou em Madri para dirigir o Real. Fica, no entanto, o exemplo.

Nem é o caso de marcar o argentino com um cão de guarda. Ele consegue se livrar e até humilha seus perseguidores. A missão é frear também Xavi e Iniesta, não homem a homem, mas por zona. E torcer para que Elano desperte, Ganso brilhe e Neymar desmonte Puyol e Piqué. Não é moleza nem no papel, mas pode ser em sonho. Por isso, insisto: neste domingo de quase verão, vamos madrugar para assistir a uma fantasia mágica.

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