Carmen Mandato/AFP
Carmen Mandato/AFP

Acordo de Kaepernick com a Disney inclui projeto de Jemele Hill na ESPN

Quarterback ativista estará na produção de histórias 'escritas e não escritas' por ele, explorando temas de raça, injustiça social e a busca por igualdade

Kevin Draper, The New York Times

07 de julho de 2020 | 15h24

Colin Kaepernick e a The Walt Disney Co. anunciaram um acordo que terá o quarterback ativista na produção de histórias “escritas e não escritas” por ele, explorando temas de raça, injustiça social e a busca por igualdade” para as várias plataformas da companhia, incluindo a ESPN.

O trabalho já começou com uma série de documentários sobre os últimos cinco anos da vida de Kaepernick desde que ele começou a se ajoelhar durante a execução do hino nacional antes dos jogos da NFL em protesto contra o racismo e a brutalidade policial e mais tarde acusou os donos da equipe de conspiração para afastá-lo da liga.

Pelo acordo, a Disney tem o direito de preferência dos projetos que a Ra Vision Media, empresa de Kaepernick, oferecer. Este é um dos muitos contratos que o jogador assinou no ano passado para produzir programas sobre ele próprio e sobre temas que o preocupam mesmo que permaneça em silêncio publicamente. Kaepernick fundou uma editora e pretende lançar um livro de memórias.

E se juntou à diretora Ava DuVernay para uma série da Netflix sobre sua adolescência. A Nike lançou um tênis que leva o seu nome. Ele pretende escrever artigos e realizar entrevistas para a plataforma de blogs Medium, fazendo agora parte da sua diretoria.

Desde a morte de George Floyd nas mãos da polícia em maio e a retomada da discussão em todo o país sobre o racismo e a brutalidade policial, o ato de Kaepernick de se ajoelhar em campo ganhou nova vida. 

Junto com outros atletas de todas as modalidades esportivas que também passaram a se ajoelhar, em 2016 e 2017, no mês passado centenas de jogadores de futebol europeus, pilotos de Fórmula 1, tenistas e muitos outros atletas profissionais adotaram a mesma postura.

Mas mesmo com essas enormes mudanças culturais na maneira como os americanos encaram o comportamento da polícia e o movimento Black Lives Matter, a parceria de Kaepernick com a ESPN sinaliza também uma mudança no caso da rede. Talvez o aspecto mais surpreendente do anúncio seja a identidade da produtora da série de documentários: Jemele Hill, que deixou a ESPN em 2018.

A carreira de Hill ficou muito entrelaçada com a de Kaepernik. Ela foi contratada da ESPN por 12 anos e em 2017 começou a apresentar a edição das 18 horas do programa SportsCenter, um dos mais vistos da rede. Junto com o coapresentador Michael Smith, sua versão do programa celebrava a cultura negra de um modo raramente visto anteriormente na ESPN.

O programa se deparou imediatamente com uma forte reação, interna e externa, e a ESPN acusou-a de ser “política demais”. Em setembro de 2017, dias antes de o presidente Donald Trump exigir que os donos das franquias demitissem os jogadores que protestaram durante a execução do hino nacional, Jemele Hill afirmou, pelo Twitter, que Trump era um supremacista branco. 

Ela foi censurada pela Casa Branca, o que desencadeou uma avalanche de críticas dentro da ESPN e em toda a imprensa esportiva. Seis meses depois, Jemele deixou o programa e, mais tarde, a empresa rescindiu seu contrato apesar de ainda dever milhões a ela.

“Houve um debate quanto a se a ESPN deveria focar mais no que ocorre no campo do que no que no esporte em termos sociais e políticos”, disse Bob Iger, que foi diretor-executivo da Disney. Iger disse que Jimmy Pitaro, presidente da ESPN “sentiu que o pêndulo se distanciava do campo. E eu achei que ele estava certo”.

Desde a morte de Floyd e sem dúvida influenciada pelo número limitado de eventos esportivos por causa da pandemia, a ESPN passou a transmitir programas com histórias e raça e brutalidade policial com um vigor difícil de imaginar. E também era difícil imaginar Jemele Hill trabalhando novamente com seu antigo chefe em breve.

Depois do anúncio do acordo, ela fez alusão à sua história com a ESPN, dizendo no Twitter que Kaepernick “está firme na sua decisão de que seu trabalho seja cercado por vozes negras. E, para mim, é também importante usar minha influência para elevar essas vozes, particularmente dentro da ESPN”.

E quanto a Iger, que há dois anos achava que a cobertura da ESPN havia se desviado demais dos jogos? Na segunda-feira, ele afirmou que a experiência de Kaepernick “confere a ele uma perspectiva única da interseção de esportes, cultura e raça que sem dúvidas vai gerar histórias emocionantes que vão educar, esclarecer e agradar o público”./ Tradução de Terezinha Martino

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