Adhemar vira uma lenda na Finlândia

O jornalista Matti Salmenskylä (com trema no a mesmo, como grande parte das palavras em finlandês, língua eslava que não se parece com nenhuma outra), simplesmente viu Adhemar Ferreira da Silva saltar nos Jogos Olímpicos de Helsinque em 1952. "O Adhemar tinha um estilo muito elegante de saltar, sua técnica era elegante. Nunca vi alguém saltando como ele depois". Hoje Matti tem 75 anos e, aos 22, já atuava como jornalista esportivo - trabalhou em jornal por 40 anos, antes da aposentadoria. A história, que Matti, um senhor careca de olhos azuis, conta, mostra que Adhemar Ferreira da Silva, aos 25 anos e sem nunca ter sido profissional, como no atletismo de hoje, sabia fazer "marketing" pessoal, pelo menos para agradar a um povo que não o conhecia. "Ele cantava uma canção finlandesa que fala das mulheres. E isso agradava muito. Adhemar foi muito popular aqui, como Emil Zatopeck, que também falava um pouco de finlandês. Todas as vezes que o da Silva ia a uma Olimpíada, desde então, visitava a delegação da Finlândia e cantava a tal música", observa Matti. Sobre o salto, o jornalista ainda se recorda que a caixa de areia era na mesma posição está no mesmo local ainda hoje - "foi tudo reformado no estádio, é claro, mas a caixa ainda é no mesmo lugar". Sobre o estilo elegante do saltador brasileiro, acha impossível fazer comparações com os atletas de hoje, nem com o recordista mundial, o inglês Jonathan Eduwards, ou o campeão olímpico, o sueco Christian Olsson. E o motivo é simples: "tudo é muito diferente, é como se fossem esportes diferentes, hoje a base de tudo é ser mais forte e mais rápido". Matti observa que a maioria dos finlandeses que assistiu aos Jogos de 1952 está morta e que, entre os jovens, a presença de Adhemar não é mais tão forte assim, como já foi. Mas sua passagem por Helsinque foi extremamente marcante porque, além de ganhar o ouro, o brasileiro quebrou duas vezes, em plena Olimpíada, o recorde mundial da prova, com saltos de 16,12 m e 16,22 m, e em Helsinque. O fato de o recorde ter sido quebrado na Finlândia, com medalha de ouro, teve grande importância para o povo, segundo o embaixador brasileiro Luiz Henrique Pereira da Fonseca. "No cinqüentenário da Olimpíada, em 2002, ele foi muito lembrado", comenta. "O país organizou a segunda Olimpíada após a Segunda Guerra Mundial, estava acabando de pagar suas dívidas e precisava reencontrar-se como Nação. O fato de o recorde mundial do triplo ter sido quebrado numa Olimpíada, aqui, e a eleição da miss mundo da Finlândia naquele ano foram muito marcantes para os finlandeses", acrescenta, dizendo que o primeiro navio mercante que trouxe café ao País após a Segunda Guerra carregava produto brasileiro. "É o país com o maior consumo per capita de café do mundo". E a tal música finlandesa que Adhemar cantava - mesmo em cerimônias, no Brasil - parece mesmo ter marcado sua passagem pela Finlândia. O cantor André Noël Chaker, diretor de protocolo do Mundial de Helsinque, conta como a canção de Adhemar ajudou a cidade a ganhar a sede dessa competição, numa eleição realizada pelo conselho da Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF), em 2001, em Nairóbi. "Helsinque era a última candidata a se apresentar, pensamos que teríamos de oferecer algo diferente". Chaker entrou no palco cantando. "O nome da música é Sim, para você mulher bonita", observa, traduzindo o título do finlandês para o inglês. "Eu cantei isso, em finlandês, por uns 30 segundos. É uma música antiga, tradicional. Quando terminei, apontei para o telão, que mostrava o salto de Adhemar, e disse: ?Esse homem cantou essa canção em 1952, ele era muito charmoso e ser tornou uma das estrelas dos Jogos Olímpicos de Helsinque". Chaker conta que o presidente da Confederação Brasileira de Atletismo, Roberto Gesta de Mello, que tem voto no conselho, agradeceu a Finlândia por lembrar do herói olímpico do País e disse que, se Adhemar estivesse vivo (morreu em 2001, após completar 73 anos, durante os Jogos de Sydney, em 2000), votaria em Helsinque. "Pensei, um voto já temos", comenta Chaker. Entende que Adhemar conquistou a Finlândia porque fez um investimento emocional, passou uma imagem de alguém que tinha bom sentimento. Chacker, que fala francês, inglês e finlandês garante que não é fácil para um estrangeiro de língua latina aprender o idioma da Finlândia. "Ele era muito bom nisso".

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