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Adorável derrota

A derrota do São Paulo para o Ituano levou as duas torcidas ao delírio. O são-paulino estava mais preocupado em tirar o Corinthians do campeonato do que torcer pela vitória da própria equipe. Coisas da rivalidade, que transforma o revés em triunfo.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2014 | 02h05

Não é possível dizer que o São Paulo tenha facilitado a partida para o adversário. Estava claro apenas que a vitória traria problemas para os jogadores, e que aquela queda de voltagem do time deixaria a semana mais tranquila.

Foi apenas mais um jogo ruim de um campeonato sem graça, e desta vez em pleno dilúvio. A voz das arquibancadas comemorou a desclassificação do rival, que não cumpriu a sua parte da missão, contra o Penapolense.

Longe de casa, calor intenso, num clima bem diferente do alagado Morumbi, o Corinthians não tem do que reclamar. O empate sem gols não lhe dá o direito de criticar a postura são-paulina. O time de Mano Menezes é vítima de seus problemas, gerados no campo e ampliados fora dele. A resposta está nos seis jogos sem vitória e na boca do próprio treinador, que afirmou ter realizado a reformulação que ninguém teve a coragem de fazer.

Muita gente considera normal a entrega de um jogo, natural no ambiente do futebol, principalmente em função da rivalidade entre clubes da mesma cidade. Em 2009, o Corinthians não jogou como Corinthians contra o Flamengo, em Campinas. O time carioca venceu e foi campeão brasileiro, com dois pontos de vantagem sobre São Paulo e Internacional.

Em 2010, depois de nove rodadas sem conseguir vencer duas partidas seguidas, o Fluminense derrotou Palmeiras e São Paulo fora de casa, pontinhos fundamentais para a conquista do título nacional, para azar de Cruzeiro e Corinthians.

Nos dois campeonatos subsequentes, para evitar os pontos superfaturados, a CBF programou clássicos na última rodada. A medida pode ser entendida como uma constatação do deslize.

Não existe santo nessa história. É parte do nosso profissionalismo capenga em ação, problemático em tantos aspectos que entregar um jogo faz parte do negócio. É comum os jogadores sofrerem ameaças. O sistema facilita e protege os insanos, materializa o desejo da cartolagem.

Quem sonha com um futebol diferente, se tiver sorte, será definido como ingênuo ou hipócrita, pois aqui tudo é normal. O estádio é um mundo paralelo. É o gramado esburacado, a arquibancada desconfortável e vazia, a federação forte e o clube fraco, e o jogo esquisito. Simples assim.

O caos gerou o Bom Senso F. C., são dois mil jogadores dispostos a exercer o papel abandonado pelos dirigentes. Hoje BSFC apresentará sua proposta de calendário e de controle financeiro dos clubes.

O projeto é muito simples: maior quantidade de jogos para os clubes pequenos e menor para os grandes. Dos 684 times que disputam os estaduais pelo Brasil, 496 não tem atividade no restante do ano. São mais ou menos 12 mil jogadores desempregados em todo o País. E está tudo bem?

O fair play financeiro é óbvio, de entendimento rasteiro. Não se pode gastar mais do que se arrecada. O Bom Senso F.C. vai propor a criação de uma entidade para fiscalizar a atividade financeira dos clubes e até puni-los em caso de inadimplência.

A missão que deveria ser executada pelas instituições do futebol, a começar pelo ministério do Esporte, agora está sendo proposta pelos jogadores. Mas dificilmente haverá algum avanço antes da Copa do Mundo.

Um dia os clubes vão acordar e perceber que serão mais ricos e felizes sozinhos, cuidando do seu negócio. Só precisam de coragem e um pouco de organização.

Basta a composição de uma liga para se livrarem do fisiologismo que caracteriza a relação com as entidades de administração do esporte. Por enquanto, são todos culpados, coautores dessa inutilidade chamada federação.

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