Afonsinho

Se o futebol teve seu Che Guevara, esse cara foi o Afonsinho. Personagem carismático, de esquerda, destemido, engajado, por vezes quixotesco, o rebelde meia do Botafogo e do Santos ocupou lugar especial no Brasil dos anos 70, um país ansioso por transformações sociais e em busca da abertura política. Ele foi o primeiro líder dos profissionais dos gramados, uma luta pela qual pagou um preço alto, mas que, como ele mesmo costuma dizer, valeu a pena.Afonso Celso Garcia Reis, jogador, médico, musicista, boêmio, gente boa toda vida, nasceu em São Paulo em setembro de 1947, filho de um ferroviário e de uma professora. Passou a infância em Marília e a adolescência em Jaú. Depois do começo na várzea, foi para as divisões de base do XV, onde foi descoberto por um olheiro do Fluminense, que o levou ao Rio. Um acaso do destino fez com que o olheiro fosse parar no Botafogo e, em função disso, Afonsinho jogou pelo seu time do coração.O clube que tanto amou não foi capaz de retribuir o sentimento. Nos anos 70, nem o futebol escapou do regime militar. Eram tempos de campeonatos inchados para atender aos interesses de "integração nacional". Campeonatos que chegaram a ter quase cem clubes. "Onde a Arena vai mal, põe um time no nacional. Onde a Arena vai bem, põe um time também" - era o bordão. Por alguma razão insondável, governos militares implicam com barbas e cabelos compridos. Afonsinho sabia disso. Como não jogava num regimento e sim num clube, achou que poderia cultivar suas longas madeixas e uma barba de fazer inveja a guerrilheiros. Ledo engano.Os conservadores dirigentes do clube de General Severiano acreditavam que ficariam mal com o governo se mantivessem no time aquele ameaçador barbudo, por maior que fosse o seu talento. Além de tudo, era letrado. Pior ainda: politizado. Cursando medicina, o articulado boleiro fez amizades com artistas e intelectuais, e passou a liderar movimentos estudantis na universidade. Aí era demais. Afonsinho acabou barrado.Como castigo adicional, os cartolas botafoguenses se recusavam a negociá-lo. Foi quando decidiu recorrer à justiça, coisa que naqueles tempos era algo difuso. Numa decisão surpreendente, o tribunal da CBD concedeu passe livre ao jogador. Afonsinho se tornara o primeiro jogador alforriado no futebol brasileiro - e poderia jogar onde quisesse. As pressões do governo militar inviabilizaram que ele conseguisse bons contratos. Ainda assim, como prêmio por seu caráter, o craque que já tinha atuado ao lado de Garrincha foi jogar no Santos, com Pelé. Mais tarde, perambulou por vários times até encerrar a carreira no clube que por pouco não o lançou: o Fluminense.Fiel aos seus princípios, Afonsinho jamais deixou de trabalhar pelas causas sociais. Depois de ver e ouvir tanta sandice no futebol, foi trabalhar como médico-psiquiatra do Instituto Pinel, onde realiza um trabalho de esporte como complemento do tratamento psiquiátrico, para combater a estigmatização dos usuários de serviços de saúde mental. Além disso, o ainda barbudo - mas agora com cabelos ralos e grisalhos - comanda um extraordinário projeto que promove assistência a crianças carentes através do futebol.Afonsinho não colheu as glórias que, como craque, poderia ter colhido. Mas foi eternizado numa canção de Gilberto Gil, como "o prezado amigo Afonsinho", e virou personagem do documentário Passe Livre, de Osvaldo Caldeira, considerado o filme que inaugurou o circuito alternativo no Brasil. Ao final, obteve o reconhecimento mais importante: o respeito como homem, cidadão e líder. Fez história. Em meio a tantos jogadores que se calaram, Afonsinho teve a coragem de lutar.

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