Africanos, um bando de fanáticos

No continente da próxima Copa, estar ligado ao mundo do futebol é tão essencial como demonstrar fé

Rodrigo Cavalheiro, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2010 | 00h00

No labirinto formado pelas ruelas de Fez, norte da África, o cheiro dos perfumes rivaliza com o do couro tingido à mão. O som de mulas de carga se confunde com o de galinhas, e a fala dos mendigos encapuzados é abafada pelo chamado das mesquitas. Do chão, Fez é uma cidade medieval. Do alto, é uma paisagem marrom pontilhada por rodas brancas. Elas alimentam o fanatismo africano.

O marroquino Mohamed Daud pagou 400 dirhams por sua antena parabólica, uns R$ 120. Graças a ela, não perde um jogo do Barcelona ? time mais popular nos países africanos colonizados por franceses. Em territórios de fala inglesa, como Gana e Nigéria, a preferência se divide entre o Manchester United, o Arsenal e o Chelsea.

Enquanto trabalha como flanelinha, Daud costuma discutir apenas futebol com os amigos ? política e religião não se prestam muito a debate na monarquia marroquina. Daud, quatro filhos e apenas uma mulher, sabe a tabela do Campeonato Espanhol. Conhece os jogadores famosos e tem conceitos claros sobre o esporte. "Argentinos batem muito. Com o Marrocos fora da Copa, vou torcer pelo Brasil."

Como a sabedoria de Daud é proporcional àquilo que capta sua parabólica, ele não conhece os clubes brasileiros. Pela mesma razão, em um dia aparecem dezenas de camisas verde-amarelas. Em quatro meses de viagem pela África, nenhuma dos times nacionais. Uma conversa entre um africano e um brasileiro:

? Você é brasileiro, que bom! Para que time você torce?

? Para tal, campeão do mundo.

? Mas na Europa, para qual?

Não se entende que brasileiros torcem para times... brasileiros.

Nas maiores cidades da costa oeste africana, as mulheres ainda usam trajes regionais. São lenços e vestidos costurados em casa a partir de tecidos coloridos, estampados com o rosto de algum ancestral, líder ou lema. O traje típico dos homens é mais singelo: camisetas falsas dos times europeus e das seleções campeãs do mundo.

A camiseta mais vista é a canarinho, como a que veste diariamente o ganês Ishmael. Aos 14 anos, este morador de Paga, na fronteira com Burkina Fasso, não admira a técnica ou a ginga brasileira. "Gosto do Brasil porque os jogadores têm confiança", resume o garoto, com o uniforme rasgado que vai quase até o joelho.

Como não tem parabólica em casa, ele acompanha a leva de vizinhos até o posto de imigração erguido na faixa neutra entre os dois países. Ali, na única televisão conectada ao satélite na região, os anglófonos ganeses e os francófonos burquinenses veem os grandes jogos internacionais. Cortesia dos sisudos oficiais da imigração. Durante duas horas, eles permitem que a sala onde passaportes são carimbados lote de aficionados, não importa a nacionalidade. Graças a uma antena, o intimidador posto de imigração ganha ares de estádio, com torcedores espremidos, aplausos e gritos até em carrinhos e dribles no meio de campo.

Embora a televisão seja a principal forma de conectar os africanos ao resto do mundo, a telefonia e a internet ganham espaço. Nestas duas áreas, grande parte do continente é como um paciente que saiu do coma após 20 anos, ao que resta trocar suas fitas cassete pelo MP3. Postes e cabos demoraram tanto a chegar em povoados de Senegal, Burkina Fasso, Mali, Gana e Togo que seu horizonte é composto por uma caixa d"água, uma torre (de igreja ou mesquita) e uma antena de telefonia móvel ? um número de celular em Gana custa a Ishmael R$ 3. Este também é o preço de uma hora em uma lan house de Acra, a capital ganesa ? há cybercafés em todas grandes cidades. Telefones e internet são serviços baratos, mas ainda de qualidade precária.

Neste aspecto, a terra do Mundial parece estar em outro continente. Em Johannesburgo, onde vive, o guia e motorista sul-africano Mandla, de 60 anos, assiste aos jogos do Orlando Pirates, um time local, pela TV a cabo em casa. Tem um celular moderno e usa internet sem fio no albergue em que trabalha ? a web é quase uma regra na rede hoteleira sul-africana. Não é isso que daria inveja em Daud e Ishmael. Mandla é o único dos três africanos que poderá exibir seu fanatismo em um dos templos do Mundial.

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